Pão

O que te faz sentir inteiro?
A linha dos teus pedaços
A segurança do teu canteiro
Medida certa dos teus passos

Um rosto de uns poucos traços
Traçados sem nenhum pudor
Um alguém perdido entre os teus braços
Seja ele ou ela quem for

Se o mundo é uma noz
Tantos canais e uma só voz
Que não se cansa de gritar

Que o caminho é um só
Carne, lágrima e pó
Um anel pra todos governar

Num dedo só de uma só mão
Um sol, um deus, um pão

Pra que tanta coerência?
Tanta carência de alucinações?
Tanta eloquência exigindo independência
Ainda agarrada aos grilhões

Variações de um mesmo tema
Pronúncias de um mesmo fonema
Caducos e burocráticos

Sempre aparece um final
Uma só versão oficial
Pro gozo dos matemáticos

Estáticos doutores
Preguiçosos espectadores
Da floresta que brota ao redor

Do suor, do sangue e leite de outras mães

Jogam assim o ardor e a cor
Dos dragões aos cães
E se no fim a cura da nossa dor
For o bolor de outros pães?

Indefinido como uma Noite Silenciosa


Propósito. De todas as “grandes obras” da humanidade, essas que enchem os livros de História de odes hipócritas, o que me impressiona mais não são os resultados: mais cedo ou mais tarde as pedras desmoronam, as estátuas desmancham, o mármore vira pó. Não; o mais impactante de tudo é a força motriz da criação, a vontade e a loucura, populares ou despóticas; as almas de muitos homens-formiga, mente-colmeia, unidas em uma só direção. Um só objetivo. As grandes pirâmides eram tumbas majestosas de reis considerados divinos; Stonehenge era um observatório astronômico pra sacerdotes que idolatravam as estrelas. Propósito.
Em meados do século XI, uma civilização desconhecida construiu uma série de cidadelas de pedra nas savanas subsaarianas, com muros que chegavam aos onze metros de altura, sem mesmo conhecer a argamassa; o nome do Zimbábue (país onde a maioria dessas construções se localiza), inclusive, deriva de “dzimba-dza-mabwe”, que significa “grandes casas de pedra”. Entre as labirínticas ruas e os monólitos esculpidos em estranhas imagens, as estruturas que mais chamam atenção, com certeza, são as torres cônicas: paredes com 22 metros de altura e 10 de espessura, sem janelas, sem portas; o único acesso ao interior sendo por cima. Propósito. Quem quer que fossem os responsáveis por essas maravilhas, haviam sumido já na época em que os primeiros europeus chegaram à região; e os habitantes locais, como relatou o historiador português João de Barros, achavam que os zimbábues eram “obra do diabo”. E, excluindo-se hipóteses paranormais, homens-pássaro e discos voadores, que outra explicação pode justificar tanto empenho, tanto tempo gasto, por tanta gente?

Não sei. Trabalhar muito tempo com enigmas exatos destrói nossa capacidade de raciocínio lógico. As pessoas sempre buscam transcendência. Se sobra uma peça no quebra-cabeça (por simples falha humana, coisa cotidiana, sem culpados), elas ligam pra empresa pra perguntar. Querem achar outro termo, com o mesmo número de letras, que caiba no mesmo espaço nas palavras cruzadas; e, se encontram, acham que desvendaram uma conspiração. Vivem num ARG, as regras são o maldito propósito.
Já não se fala mais de um Deus pessoal, cujos atributos só possam ser aproximadamente inferidos pela negação. Mas sobrou no caldeirão do mundo um sentimento denso, ainda que vago; uma noção latente de ordem e perfeição como se objetivas, derivada da mais primitiva insegurança: um deus-máquina, sustentáculo das formas e essências, semi-personificação da teleologia, descido do glorioso trono celeste pra governar os dados de cada mesa de RPG.

Talvez a grande graça (em todos os sentidos possíveis) que os antigos nos tenham deixado seja mesmo a charada infindável: a contradição constante, a piada suprema, por trás de cada surto de megalomania; mesmo que não fosse essa a intenção. Quem hoje vai saber? Ficaram pros olhos honestos os reflexos patéticos de tremendos esforços vãos: grandes ideais que acabaram por se resumir em objetos de mera contemplação e fontes de lucro pra aproveitadores que nada têm a ver com o “propósito” original.
Ou talvez sobre na arte dos povos do passado um bom humor que atualmente nos falta: o reconhecimento dos eternos fluxo e refluxo de significado, da impermanência dos nomes. Cientes de sua própria efemeridade, artistas esquecidos teriam trabalhado livres, sem pretensões, sol per sfogare il core; e não é impossível que algum deles, notando as peculiaridades do fruto de seu labor e se permitindo imaginar além de sua época e cultura, tenha, num dia qualquer da noite dos tempos, pensado consigo mesmo:
- Cara, ia ser muito engraçado se algum dia alguém levasse isso a sério!

Uma Questão de Semântica


Um breve pensamento que me ocorreu há um tempo, só pra não dizer que eu não postei nada este mês:
Existem algumas palavras por aí que podem significar o exato oposto do que elas significam, ou do que as pessoas geralmente consideram que elas significam, e parece que ninguém percebe isso. O exemplo sobre o qual eu andei meditando é o de termos como “inquestionável”, “indubitável”, e o seu uso corrente como sinônimos de “certo”, “correto”, “verdadeiro” e coisa e tal.
Ora. Por “inquestionável” eu entendo algo que não se pode (ou não se deve) questionar, e acredito que seja mais ou menos isso que qualquer outro falante do português deve assimilar dessa palavra. Agora, por que algo que é supostamente certo, correto e verdadeiro não pode ser questionado? Ou eu não manjo nada de lógica, ou, quanto mais próximo de uma verdade absoluta alguma ideia está, mais ela pode ser questionada, porque a resolução, presume-se, vai ser sempre a mesma; e, por outro lado, o “indubitável” me parece aquilo de mais estúpido, vago e quebradiço que se pode imaginar, pensamentos tão absurdos que, pra sua própria segurança (e a daqueles que neles acreditam), não podem ser questionados. Enfim, exatamente o contrário do que dizem os dicionários.
A grande questão aqui é: por que será que, desde que adquirimos a linguagem, nós aprendemos a equalizar “correto” com “inquestionável”?