Pedaços da Realidade

“Morreu em casa, na madrugada desta terça-feira, a conhecida residente local, Gabrielle Madison (...)”. Assim se referiu o único jornal daquela cidadezinha do Oregon à morte de uma de suas mais célebres conterrâneas (se é que existiram mais). Lacônico, o autor da nota esforçou-se em se manter imparcial em relação à vida e a obra da senhora Madison, talvez almejando não ridicularizar o único possível interesse turístico local, sem ao mesmo tempo apoiar ou contradizer (ou mesmo discutir) as idéias da falecida. Esta, estivesse viva para ler a notícia de seu próprio óbito, certamente não aprovaria a postura dúbia do jornalista.
Gabrielle Madison, fosse louca ou visionária, será lembrada por alguns como uma serva da ciência, da matemática, de tudo aquilo que pudesse levar o rótulo de “exato”. Seu empenho em levar o método científico além dos limites do que em geral se considera plausível rendeu-lhe tanto um pequeno e fervoroso culto como uma ampla rejeição da mídia mainstream (isso quando esta lhe dava alguma atenção). Não obstante, seus livros venderam o suficiente para que pudesse se sustentar por sessenta e dois anos de uma vida confortável e segura na cidade em que nascera, até ser encontrada morta sobre a cama por sua sobrinha-neta Joanne; a causa mortis divulgada foi parada cardíaca, decorrente dos altos níveis de colesterol e glicose em seu sangue, da obesidade e do sedentarismo de seu estilo de vida.
O primeiro volume de sua oeuvre foi publicado em 1987 por uma pequena editora em Portland, bancado pela própria Madison. O livro, um ensaio filosófico entremeado de relatos autobiográficos (num estilo que chegou a ser categorizado como “esquizofrênico” por um crítico), foi nomeado Pieces of Reality. Nele, a autora descreve suas experiências com atividades paranormais desde a infância, obviamente paradoxais ao amor pela ciência que logo surgiria em seu íntimo. Considerava-se cética. Durante toda a sua vida, estudou a fundo todo material acadêmico em que conseguia pôr suas mãos, buscando explicações lógicas para os fenômenos que presenciava; encontrou-as, entretanto, folheando o livro de um sociólogo: foi ao ler As Regras do Método Sociológico, de Émile Durkheim, que Madison sentiu-se inspirada a criar suas próprias hipóteses sobre a realidade, a percepção humana e os mistérios da ciência. A frase chave, de cuja interpretação a autora elaborou toda sua teoria, foi posta como epígrafe de seu livro, no francês original: “La première règle et la plus fondamentale est de considérer les faits sociaux comme des choses”. 
O cerne de Pieces of Reality, portanto, é que, assim como a sociologia de Durkheim reduzira seu estudo a uma unidade mínima (o “fato social”) para que o método científico pudesse ser aplicado, também deveria proceder a fenomenologia. Para Madison, existiria um “mundo total”, compreendendo a soma de toda a matéria e energia, todas as coisas às quais os sentidos humanos têm acesso no universo; esse mundo representaria o limite máximo da existência que cada pessoa poderia experimentar, dentro do qual interagiríamos uns com os outros (não sendo muito distante, portanto, do conceito de Lebenswelt de Husserl). Contudo, não poderíamos perceber o total do mundo ao mesmo tempo. Escreveu a autora: “(...) é teoricamente possível que, analisando o cérebro humano, achemos a medida exata, em impulsos elétricos, de tudo que um determinado indivíduo está experimentando a cada instante. A isso que chamamos ‘Percépton’, a unidade mínima da realidade percebida”. Madison chegou mesmo a propor uma fórmula “matemática” para se calcular tais unidades: MT / tP = Pn, onde “MT” denota “mundo total”, “tP” representa o “tempo de Planck” (a menor medida de tempo possível pela física) e “Pn” é a abreviatura de “Percépton”. 
A parte mais polêmica (e mais execrada pela Academia) da teoria, entretanto, diz respeito à paranormalidade. Segundo ela, a mente humana, assim como um computador, está sujeita a bugs, falhas no “sistema” que produzem resultados incorretos ou inesperados. Dessa forma, quando exposto a uma combinação específica de experiências sensoriais (ou seja, a Percéptons peculiares), o cérebro “inventaria” fenômenos que na verdade não estão acontecendo. Cada pessoa teria diferentes “chaves” que desencadeariam essas falhas, e em livros posteriores a autora tentou relacionar essa característica tanto à herança genética do indivíduo quanto a teorias da psicanálise.
Não fosse essa última parte de sua teoria, não é impossível que Madison tivesse conseguido para si um papel bem menos negativo na história do conhecimento; se não como uma cientista, talvez uma filósofa de considerável renome. Entretanto, sua explicação para os fenômenos supostamente ocultos com que ela própria convivera a vida toda foi posta ao ridículo pela esmagadora maioria dos que leram sua obra. A idéia de que o cérebro humano possui falhas de “planejamento” levou muitos a interpretarem sua teoria como inerentemente deísta e esotérica, noção que a autora teve de combater durante toda a vida. Em seus últimos anos, críticos já incitavam a compra de seus livros como se fossem romances humorísticos, antes mesmo de serem lançados.
Gabrielle Madison morreu na madrugada de 22 de julho de 2011, deixando uma pequena legião de fãs e um livro inacabado: O Real e o Imaginário tinha como meta relacionar suas teses com a sociologia, a filosofia pós-estruturalista e o estudo do pensamento humano. Ironicamente, esse último trabalho (segundo relatos da família) iria conter uma considerável revisão de algumas de suas idéias. A seus próprios demônios, por exemplo, a autora convencera-se a atribuir origens bem mais ortodoxas; quais seriam estas, contudo, possivelmente nunca venhamos a saber.
                                                                                    

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