Tudo que está à nossa frente e olhamos com paciência e reverência são os eventos que fluíram dias já passados às mentes de mil gerações de pessoas, mas ainda os lembram as tábuas e pedras, enquanto caímos de costas naquilo que não conhecemos. Nossos avós escreveram para que nossos pais e mães lessem, e nossas mães e pais escreveram para que lêssemos. Agora lemos.
Registrou-se que houve ocasião em que Mahil, pessoa de pesadas cargas de memória, caminhava pelo Cubo Verdazul*, entre grama, mar e céu; acompanhava-a o jovem Iamu, ainda leve, muito adiante de seu cargo como Líder dos Escritores. A uma distância desconhecida entre a elevação de Patsippu e o Grande Lago, Mahil decidiu parar para descansar. Um amigo** do Kkalhi descia calmo da terra mais alta e seguia para o meio daquela face do Cubo, onde, não é visto mas certo, juntar-se-iam e continuariam fluindo até seu destino imperscrutável. Ali sentaram sobre o chão úmido. A mulher observava os jeitos do Mundo sem preocupações, mas seu aluno lhe formulava questões que considerava difíceis.
- Parece-lhe adequado, mestra, que existam tais pequenos seres? - foi sua pergunta, ao que passavam formigas à beira dos pés de Mahil.
- Sim. - considerou a mulher sábia.
- Mas como é assim, se sua pequenez é tanta que quase não os vemos, e sem vontade de destruição os destruímos? Assim é que não podemos agir como queremos, e fluem os eventos do Mundo de forma diferente de nossa vontade.
- Assim é, notoriamente.
- Assim que não temos controle junto de nossas ações, nem nossas ações o têm junto dos jeitos do Mundo?
- Temos controle junto das ações que compreendemos, e as ações que compreendemos têm controle junto dos jeitos que são nossos, que surgiram apropriadamente às pessoas.
- Parece-me, então, que conhecemos apenas um topo de tudo que flui.
- Igualmente a mim.
Mahil então largou a mão na terra, e uma formiga agarrou-se a ela, ao que a mestra continuou a evocar sua memória.
- Se o pequeno ser se extingue sem ser advertido por nossa inadvertência, também é assim conosco.
- Como o é?
- É como te digo: somos extintos tal qual dormimos. Nossa vida nos foge, apenas que na morte não retorna. A nascente da destruição é oculta: apenas a foz nos é aparente.
- E nas lutas?
- Também as formigas lutam, e isso não traz o motivo de um ser ferido acabar-se.
- Somos formigas?
- Em classe, mas não em tamanho. É certo que existem às formigas suas próprias formigas, seres menores que são destruídos no fluir dos eventos dos maiores.
Daqueles pensamentos, Iamu formou um próprio.
- E a nós igualmente, vejo agora, há tal parentesco.
- É notório. Dos gigantes tudo passa a nós, apenas a verdade de sua existência nos é visível.
- Somos as formigas dos gigantes.
- Sim, e os gigantes das formigas. O fluir dos eventos dos gigantes é que nos destrói, sem que sejamos advertidos; e o fluir de nossos eventos que destrói as formigas, sem que o percebam.
- Vejo subir a névoa na verdade da morte!
- Vê-lo? A mim os jeitos têm diferente aparência. Ainda há muito que se esconde a mim junto dessa parte.
- Admito-o.
Sorrindo, Mahil pôs-se paralela e andou até um galho morto sobre a terra. Portou-o e trouxe mais de sua carga junto de Iamu.
- As pessoas têm evocado pensamentos finos demais, quebradiços.
- Como o é?
- É como te digo: pensam do infinito como um surgimento, uma construção de suas mentes; ao que, no finito, vêem verdade.
- E não há?
A estudiosa riscava o chão úmido com o braço de árvore.
- A verdade no finito, essa verdade é surgimento. O infinito existe sem que queiramos que exista ou possamos imaginar que não existe. O finito precisa ser circulado para existir.
- Não o vejo.
- Não? Que te é visível do pensamento das pessoas que viram o rosto para Patsippu?
- Diz-me.
- Digo-o: das pedras, das tábuas, do que fluiu passado e foi escrito, dos calores rubros dos fogos, das ferramentas de prédios e lutas, das criações de controle, trocas e morte; de toda essa parte, vêem apenas o Manto da Rainha, que é o círculo aí.
Mahil construía formas na terra ao que falava.
- E que te é visível do pensamento das pessoas que viram o rosto para Aucci, depois da beirada do chão?
- Diz-me.
- Digo-o: da água, do sal, dos grandes animais de madeira que vão carregando pessoas e nunca voltam, da luz que cai no fim do dia, da névoa do fundo que nunca se atingiu e dos seres que certamente vivem lá, e das terras atrás que, é certo, existem; de toda essa parte, vêem apenas o Grande Lago, que é o círculo aí.
Concluindo, a sábia tornou o rosto de Iamu para os riscos no chão.
- Que criaste?
- Vês que todo o pensamento que eu evoquei é perceptível aqui?
- Tento o ver.
- Não é difícil: do círculo para dentro, os riscos caem para o meio como a água caindo por uma pia, em curvas; do círculo para fora, os riscos voam para todas as direções como a luz de uma vela, diretamente. São apenas um, e assim flui o infinito; é preciso do círculo para circular cada coisa.
- Assim é que as coisas não existem?
- Elas existem, mas estão todas agarradas, como as gotas de água no mar. De todas as coisas a verdade passa aos olhos das pessoas, fica apenas o círculo.
- E o que está dentro dele?
- Não, tais passam igualmente. Quebra uma pedra, e terás muitas; quebra cada uma delas, e terás mais, e não encontrarás fim nessa parte. Que nome dar a cada uma delas? Que título, que cargo?
- Há?
- Não. As pessoas circulam a pedra e se dão por satisfeitas.
- E, junto da pedra, a dureza?
- A dureza, a força, os muros, os escritos e prédios; por parentesco, também as tábuas.
- E o que está fora do círculo?
- Também passam. Junta dois punhados de areia e terás um punhado maior; junta mais a ele, e maior ainda será, e não encontrarás fim nessa parte. Que nome dar a cada um deles? Que função, que unidade?
- Há?
- Igualmente, não. As pessoas circulam o punhado de areia e se dão por satisfeitas.
- E, junto do punhado de areia, o crescimento?
- O crescimento, o conto dos dias, o vidro e o calor do deserto; por parentesco, também a terra úmida à beira dos rios e todos os chãos.
Iamu se pôs fechado.
- Vejo que não há fluxo.
- Não nas mentes. Constroem círculos e círculos de círculos, e depois, atrás, círculos para os primeiros círculos; assim são separadas as gotas de água do mar.
- E essa é a verdade dos jeitos do Mundo?
- Não. Essa é a verdade dos jeitos das pessoas: uma malha de construções que são nomeadas “coisas”.
- Por isso que, no considerar, vemo-nos gigantes e formigas em simultâneo!
Mahil largou uma risada e tornou o rosto para Iamu.
- Vejo que tua carga aumentou, ainda que em apenas uma gota. É bastante. Sigamos nossa caminhada.
E assim foi, do que se escreveu junto do evento que fluiu adiante do tempo de nossos antepassados, o dia em que Mahil e Iamu conversaram à beira de um amigo do Kkalhi no Cubo. À memória do Mundo, que esse dia nunca seja esquecido.
* Na absoluta falta de melhor vocábulo, traduzi mumtsi como “verdazul”. Presume-se que o tal ialla mumtsi fosse uma região cercada de colinas verdes por três lados, tendo o mar no lado restante; isso, somado ao céu azul e à grama verde, formava um “cubo”. O adjetivo original designava as duas cores simultaneamente, de forma semelhante ao termo japonês aoi (青い).
** Aparentemente, pikku era usado, de forma figurativa, para designar afluentes de rios. A maioria das palavras e expressões foi traduzida literalmente, e o sentido nem sempre é claro.
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