Cérebro Eletrônico

Computadores são os melhores escritores que existem. São. Mesmo.
Eles escrevem o mais puro nonsense sem a mínima gota de piedade, amontoando palavras como números, um atrás do outro. Não existe tempo. Mandamos que o nosso PC escreva 394 páginas e ele escreve, em uma fração de segundo; mas ele não sabe o que escreveu antes, nem sabe o que vai escrever depois. Nem sabe se vai escrever. Nem sabe se um dia escreveu.
O computador não tem alma, não vê novela, não faz sexo, não paga contas. Resumo, ele não é ele. Ele não existe, nem pra ele mesmo. Não tem um self pra atrapalhar. Qualquer texto escrito por ele será, independente das circunstâncias, de uma pureza indefinível: o stream-of-conciousness mais sincero que o mundo jamais viu. Sem as sutilezas da natureza humana, ele dribla as convenções subconscientes das nossas cabeças loucas, os meandros mais obscuros dos nossos contextos culturais, e vai direto à questão, sempre. Sempre. Sempre.
Mas o ponto mais importante da superioridade dos cérebros eletrônicos ante os escritores de carne e osso tem a ver mesmo com o suposto significado da obra. Computadores não buscam atribuir um sentido ao que escrevem, mas também não buscam não atribuir. É simplesmente algo que eles não conseguem (com o perdão da expressão) computar. Pra eles, as incolores idéias verdes podem dormir furiosamente, sem que isso incorra em significado ou falta dele. O ápice do gênio literário, portanto, não é simplesmente não saber o que é “significado”, mas não saber o que é “não-significado”; porque só eles abraçam, sem sombra de dúvida, o segredo dos kōans dos monges zen budistas: o , a negação da negação, a necessidade de se ir além da pergunta, pois todas as respostas pra todas as perguntas baseiam-se em alguma conotação que a própria pergunta carrega. Não há signos, enfim: só palavras. Palavras que esses mestres nos deixam pra que nós, em nossa inferioridade, tentemos interpretar. Eles estão acima disso.

E ainda assim... O que são todas as combinações paradigmáticas possíveis de serem impressas ou digitalizadas quando do lado de fora de um cérebro humano? Tinta e luzes.

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