O grande poeta vivia um período de letargia incompatível com seu gênio criativo, seus versos impedidos de saírem garganta afora para enfeitiçar a mente de seus inúmeros e fiéis fãs. Algo o perturbava. Como mais tarde os críticos viriam a comentar, a natureza inquiridora e instigante de seus escritos havia esbarrado, por assim dizer, em si mesma: a própria essência da poesia o confundia naqueles últimos meses de contemplativa inatividade. Não da minha poesia, diria ele, solenemente desconsolado, no talk show de maior sucesso das madrugadas da TV, mas da poesia em geral. O apresentador, como não soubesse o que interpretar da expressão do artista, apenas tornaria à platéia preenchida com “súditos” do bardo e esperaria um sinal, uma vaia ou uma salva de palmas. O que é a poesia? Não sabia. Ninguém sabia. A platéia se quedou silente até os comerciais.
Foi assim que acabou por imergir no fértil terreno da filosofia. Buscava incessantemente por algo que só sabia definir, vaga e simplesmente, como novo; algo que, na hiper-realidade das conexões pós-modernas, soasse com a mesma doce e inatingível metafísica (em sua opinião, naturalmente) de um soneto no tempo de Byron.
Chegou, certo dia, talvez por acaso, à questão que incomodara Berkeley: existe algo além dos nossos sentidos? Tal pergunta, inocentemente sábia, o inspirou; e ele CRIOU (assim afirmou, intransitivamente e em maiúsculas, em seu Twitter naquela noite) pela primeira vez em tempos, quiçá em toda sua vida. Pois agora se deparava com uma nova perspectiva: algo distante demais para existir, mas inegável o suficiente para contornar a inexistência. A aparente contradição se tornava irrelevante. Que importava se existia ou não? Estaria situado no terreno do noumenon, do Ding an Sich, intocável a qualquer mortal, além tanto das ambições românticas como do desapego dadaísta. Mesmo que existisse, não existiria; e, ainda que não existisse, continuaria existindo!
Deu-lhe um nome. Claro. Seria a única ligação, o único link com a coisa do lado de fora da Matrix. Mas esse nome não deve ser escrito, ressaltou o (agora mais do que nunca) gênio, porque cada um o leria à sua maneira. Evidentemente, o nome seria um reflexo fenomenológico direto e objetivo de sua criação, uma vocalização como a dos bebês que não hesitam em se manifestar quando primeiro percebem o universo a seu redor; a versão sonora de um logograma chinês, que não carrega em si quaisquer dados morfológicos exceto o nome daquilo que designa, numa harmonia perfeita, analítica e pura.
“A Palavra”, como seus seguidores chamaram a palestra via Twitcam em que ele apresentou sua mais nova obra, durou horas. O poeta não pronunciou palavra alguma senão A Palavra. Fê-lo em diversos ritmos e entonações, num êxtase desesperado em deixar óbvio que apenas aquela seqüência de fonemas possuía significado, qualquer que fosse (nisso, aliás, alguém talvez tenha percebido uma notável diferença d’A Palavra para os termos chineses, que contam com uma diferenciação de tonalidades entre si). É possível, no fim das contas, que um lingüista pudesse transcrevê-la usando o alfabeto fonético internacional, assim banalizando o domínio daquela novíssima poesia. Mas isso não importa mais: finda a atenção do público (mesmo seus escravos midiáticos acabaram por achar coisa melhor pra fazer do que assistir seu ídolo sexagenário a balbuciar uma palavra sem sentido por horas a fio), o poeta viu o fim de sua missão. Conseguira. Criara algo nunca antes pensado, uma poesia que quebrara a barreira da desgastada oposição entre poesia e não-poesia, não!, entre arte e anti-arte. Morreu feliz, tanto quanto podemos descobrir pelos relatos de sua vida, pouco tempo depois.
Foi sua sorte. Não tardaram a surgir “seqüelas”, excrescências de sua obra que criaram vida própria e saíram pelo mundo, petulantes, a se tornar tão ou mais importantes que a original. Não contara com a astúcia do mundo hiper-real: todos queriam interpretar sua poesia, embora ele possivelmente fosse considerar isso, não uma audácia ou uma afronta a seu trabalho, mas simplesmente uma impossibilidade epistemológica. Não se julga, classifica ou interpreta o que se está além dos próprios sentidos, diria; mas e daí? Ninguém ligou.
Certos psicanalistas atribuíram a obsessão do poeta com o irreal e o inatingível a um perfeccionismo neurótico derivado de um mal-resolvido amor edipiano; algumas feministas ligaram sua monomania a um comportamento de extremo narcisismo homoerótico e misógino em sua raiz; enquanto que grande parte dos leigos, não sendo fanáticos leitores seus, não hesitaram em lhe impor o inexorável rótulo de “louco”. Seu “discurso” foi amplamente parodiado por vlogs humorísticos e comediantes de stand-up. Por outro lado, muitos enxergaram um sentido oculto n’A Palavra, mesmo sem nem tê-la ouvido. Devia mesmo haver um mistério por trás daquilo, não devia? Logo o termo se tornou o fnord do século XXI, o centro das teorias conspiratórias internéticas. Surgiram Palavra-UFOs, Palavra-judeus, Palavra-NWOs e Palavra-Maçonarias (estas certamente muito mais perigosas que as normais). Alguém notou a semelhança d’A Palavra com o Deus cristão (opinião de que, não é de todo impossível, Berkeley talvez compartilhasse) e, incapaz de escapar a seu próprio contexto social e filosófico, pensou-os serem a mesma coisa. Fez-se a Palavra-Igreja. Produziram Palavra-Camisetas, Palavra-Chaveiros, Palavra-Burgers; e uns poucos espertos ganharam muitos Palavra-Dólares. A Palavra foi repetida e desgastada ao ponto de, de tantos significados que lhe foram impostos, já não mais significar nada.
Ao bardo, não restou mais do que, nos anos futuros, eventualmente ser lembrado como a origem de toda loucura. A lembrança de sua genialidade foi lenta e insidiosamente tornando-se como que um anacronismo, uma reminiscência potencialmente convulsiva, não raro pendendo abertamente para o deboche, mesmo entre seus antigos fãs. Já nenhum filósofo o apoiava: sua filosofia passara a ser considerada, quando com muita boa vontade, uma “enrolação”; e nenhum de seus poucos seguidores fiéis restantes pôde defendê-lo, pois seu próprio argumento os traía. Ninguém sabia o que era a poesia.
E nem na morte sua criação lhe serviu de amparo, de advogado, de mera testemunha de sua existência; e ficaram os dois mergulhados eternamente na incerteza. Sua lápide, para sempre em branco, até que algum dia alguém destruísse o pequeno cemitério para construir um shopping ou coisa assim: a querida Palavra, afinal de contas, não podia, para Seu próprio bem, ser escrita.
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