Foi num dia qualquer que eu vi aquela gente. De repente, eles já tavam lá por dias. Anos. Sei lá, milênios. Como é que eu vou saber? Foi só naquele dia que eu notei, e só sei que, até hoje, se alguém passar por ali, eles vão continuar no mesmo lugar.
Bom, eu não lembro exatamente há quanto tempo isso aconteceu; minha noção do tempo anda meio distorcida. Foi um dia de semana, hora de largar o serviço, calçadas lotadas, metrôs apertados. No meio da confusão, num calçadão perto da minha casa (eu tava indo a pé), eu notei, sei lá por quê, um cara parado. Por acaso.
O cara só tava lá, de pé, no meio do calçadão, fazendo nada. Tá, minto. Ele tava assobiando. Assobiando. Sim, eu sei, parece ser a coisa mais normal do mundo; mas naquela hora, naquele lugar, todo mundo correndo pra todos os lados, todo mundo com alguma coisa pra fazer... E aquele cara lá, ignorando o resto do mundo, assobiando uma musiquinha... Sei lá, eu achei muito estranho. Até tive um pouco de vontade de ir lá falar com o cidadão, ou pelo menos olhar por mais um tempo pra ver o que ia acontecer; mas isso tudo foi num segundo ou dois enquanto eu caminhava. Diferente de certas pessoas, eu tinha mais o que fazer.
O caso é que, agora que eu tinha notado aquele cara lá pela primeira vez, eu percebi que ele tava lá TODOS OS DIAS. Sério. Sempre que eu voltava do trabalho e passava naquele lugar, eu via o desgraçado. Comecei a me perguntar havia quanto tempo ele fazia isso, esse ritual/esquisitice/perda de tempo. Aquilo foi tomando a minha atenção a ponto de me deixar realmente preocupado. Tipo, ah, foda-se, eu sou paranóico, mas PORRA! Era enervante. Milhões de perguntas vinham na minha cabeça. Quem ele era, por que fazia aquilo, como sobrevivia sem trabalhar, ou será que o trabalho dele era aquele? O único jeito de fazer dinheiro com uma bobagem dessas seria como um artista de rua. Artista, ok. Qualquer um é artista hoje em dia. E, de qualquer forma, nunca vi ninguém dar esmola pra ele. Aliás, parecia que eu era o único que notava o cara.
E fui demitido por isso. Lógico. O meu chefe até que era um cara bem legal, mas eu sei que eu não tava rendendo nem metade do que eu podia. Se eu fosse ele, naquela situação, teria me demitido até bem antes. E, de alguma forma, isso me deixou aliviado. Eu sentia que aquele cara era perigoso. Sei lá, como esses freaks dos filmes de Hollywood, meio esquisitos, meio quietos, ninguém nunca imagina que eles vão fazer alguma coisa ruim, e next thing you know ele matou a família inteira e tá jantando o coração da própria mãe. Eu podia arranjar outro emprego, mas não podia conviver com aquele psicopata tão perto da minha casa.
Foi aí que eu comecei a anotar todos os detalhes do comportamento dele que eu conseguia perceber, de longe, com cuidado: todos os dias, por volta das 16h (ele não era tão pontual quanto eu esperaria de um cara desses; na hora eu achei que isso fosse um bom sinal), ele ia praquele mesmo lugar; até chegar lá, ele parecia uma pessoa comum, olhando pros lados, observando a paisagem, sei lá. Mas, assim que chegava naquele mesmo lugar, ele virava o zumbi musical de sempre: parava, socava as mãos nos bolsos, fixava o olhar numa direção e começava a assobiar. Ficava nisso sem parar por umas nove horas e, lá pela uma, assim como chegava ele ia embora. Sem explicação.
Eu observei o filho da puta por dias, juro por Deus. Minha esposa já tava ficando louca comigo. Eu dizia que ia procurar emprego, mas acho que ela sabia que era mentira. Ela também trabalha, passa o dia fora; mas sem o meu dinheiro ficou foda pra gente se sustentar. As crianças já tavam reclamando que não tinha mais sobremesa todos os dias e tal. Eu precisava acabar com aquilo de um jeito ou de outro.
Beleza, vou falar com o cara. Já tá tudo na merda, mesmo. O que eu poderia fazer? E aliás, o que ele poderia fazer comigo? Me matar, no meio do calçadão? Ele não faria isso. Era louco, mas não era maluco. Certo? Bom, pelo menos era o que eu dizia pra mim mesmo naquele dia. Ele tava lá, no mesmo lugar (como se eu não soubesse). Eu cheguei tentando falar de um jeito normal, me controlando, mais por medo do que por educação. “Ei, cara, ‘cê tem um cigarro aí?” e esse tipo de coisa. Não sei por que eu ainda esperava que ele respondesse. O desgraçado conseguiu me ignorar completamente, e não tinha como dizer que ele não me viu: eu comecei a falar cada vez mais alto, como se ele fosse surdo, e passei na frente dele, gritei, fiz de tudo. As outras pessoas com certeza me notaram, e talvez por um segundo tenham sentido o mesmo que eu senti da primeira vez que eu vi o cara. Mas ele NEM SE MEXEU. Ficou no mesmo lugar, assobiando a mesma melodia chata, como se o universo dependesse disso. Nada de especial aconteceu, claro; mas ele seguiu assobiando.
Aquele dia teria sido o limite das minhas forças, a gota d’água, o match point e o caralho. Mas uma coisa que eu vi me deu alguma esperança de entender o que tava acontecendo: enquanto eu xingava aquela bicha, eu resolvi olhar na mesma direção que ele tava olhando; e lá, sei lá, uns cento e oitenta, duzentos metros de onde a gente tava, em linha reta, na fronteira exata entre o que eu enxergava com alguma nitidez e os borrões, eu vi a mulher. Quer dizer, eu percebi que era uma mulher quando me aproximei. Ela tava parada, exatamente como o cara, as mãos no bolso e assobiando a mesma música. A mesma cara sem expressão, a mesma capacidade incrível de ignorar os meus gritos.
Apesar de só aumentar a minha sensação de estranheza e deslocamento do que eu considerava normal, aquilo me fez pensar em outras possibilidades (talvez) menos assustadoras do que a idéia do psicopata solitário. Pelo menos solitário ele não era: conforme eu fui descobrindo dali em diante, eles não eram só aqueles dois. Cada um dos zumbis olhava na direção de outro, sempre a uma distância parecida. Até a exaustão total, eu andei pela cidade seguindo o rastro deles; e sempre e sempre eu via um desgraçado, homem ou mulher, jovem ou velho, parado no limite da visão. Isso até lá pela uma, quando todos viravam gente de novo e iam embora.
O que era aquilo tudo, afinal? Um desses flash mobs? Mas então porque ninguém noticiou? Ninguém percebeu? E se fosse outra coisa? Uma sociedade secreta, um culto? O QUE ELES PRETENDIAM COM AQUILO?
Ok, foi então uns dias atrás que eu resolvi fazer o óbvio. Minha esposa já tinha me deixado, meu dinheiro ia acabar logo, eu não tinha mais nada a perder. Se não pode vencê-los, junte-se a eles. Escolhi um lugar bom, tranqüilo e relativamente isolado, à mesma distância do primeiro cara que ele ficava da primeira mulher, e fiquei. Das 16h até lá pela uma, é ali que qualquer um pode me encontrar. Uma hora, algum dia, quando eles resolverem revelar pro mundo seus segredinhos, vão pensar que eu sou um deles. Eu não tenho mais nada a perder.
E sabe de uma coisa? Dia desses, uma pessoa me notou. Uma menina de uns quinze anos, cabelo pintado de azul, camiseta de banda. Devia ser tão desocupada como eu, pra notar um infeliz sem expressão no meio do nada e passar tanto tempo tentando chamar a atenção dele. Gritou, me empurrou, me xingou, fez um escândalo. Mas eu nem me mexi. Fiquei no mesmo lugar, assobiando a mesma melodia chata, como se o universo dependesse disso. Nada de especial aconteceu, claro; mas eu segui assobiando.
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