“É um quadro raríssimo”, a minha dinda disse pra mim, na lentidão de sempre, com aquele sorriso de dentadura postiça. “Certo, dinda”. “E é muito frágil, também”, e a minha cara se encheu de cuspe com o “fr”. “Certo, dinda”. “Por isso que não pode abrir”, e eu quase que já mandei ela socar o troço no cu.
Isso que eu nem tinha perguntado, só achei estranho um quadro que a gente nem pode ver. Também não sei quem foi o cabeça de teta que resolveu fazer a caixa de metal; não podia ser de vidro? Talvez fosse sensível à luz, sei lá. De qualquer forma, minha dinda tava confiante: tinha todos os documentos, o comprador não ia duvidar que era o autêntico L’ombra della Contadina, de algum pintor famoso de alguma época famosa (o nome pelo menos eu decorei).
Minha dinda ganha a vida assim: vendendo quadros extremamente raros por preços abusivamente altos pra gente absurdamente bizarra.
Enfim, lá fui eu, devagarinho, observando a paisagem... A casa do cara era perto, minha dinda só não ia porque tinha dificuldade pra caminhar, mesmo. A estrada era boa, o carro ia rodando mansinho; mesmo assim, de quando em quando eu ia com a mão sobre a caixa. “Se for aberto, o quadro pode se desmanchar no ar”, a voz da minha dinda não saía da minha cabeça. O pintor também devia ser um gênio, deve ter pintado em gelatina. Gente estranha.
Daí, conforme eu fui chegando, uma coisa e outra me incomodando, semáforo, aqueles guris chatos que vêm vender coisa, as contas, a mulher em casa, as crianças, a sogra que vinha pras férias... Acabei me distraindo. Tipo, lógico que não foi de propósito, eu não sou tão burro. Nem tava tão curioso. Não era pra abrir, eu não queria abrir. Mas eu passei meio rápido sobre um quebra-mola e a tampa foi no teto do carro.
Por um milésimo de segundo, eu não consegui fazer nada nem pensar em nada; só me mexi quando notei que o carro ainda tava andando. Freei e fixei os olhos pra frente, as mãos tremendo, a testa já suando aquele suor frio de quando a gente sabe que fez uma cagada. Olhei pra caixa. A tampa tinha caído de volta, mas não tava na posição certa; tinha uma fresta imensa (ou não, sei lá, de repente era só uma frestinha; mas na hora pareceu que tava escancarada). E o pior: não tinha quadro nenhum.
Naquele momento me veio a dúvida que eu tenho até hoje, e que não tem como eu descobrir: será que o quadro realmente desmanchou no ar, ou será que não tinha nada ali desde o início? Nunca vou saber.
Olhei praquela caixa vazia, olhei pra estrada: a casa do cara era logo ali. Ele tava disposto a dar milhões por um quadro e não tinha quadro nenhum. Minha dinda ia me matar. Só tinha uma coisa que eu podia fazer: tampei de novo a caixa e fingi que não tinha acontecido nada. Me deu um pouco de pena de fazer aquilo, mas assim é a vida. E eu nem sou muito fã de arte; acho que foi pena do próprio quadro, mesmo. Tava com crise existencial, coitadinho: não sabia se existia ou não. Sei lá, minha cabeça tava meio confusa naquela hora. Mas lá fui eu.
“Olha, o senhor vai me desculpar, mas o quadro é muito frágil e precisa permanecer dentro da caixa”, disse eu pro sujeito enquanto ele arrancava a caixa das minhas mãos. O cara tinha jeito de bichona, careca, de bigodinho, parecia uma minhoca velha; não que eu já tenha visto uma. Enfim, ele me pagou uma dinheirama por um troço que nunca vai ver, e não pareceu se incomodar com isso: só dos documentos que ele quis saber. “L’ombra della Contadina, que maravilha”, e a voz só confirmou as minhas suspeitas de que ele era uma minhoca gay. Guardou a caixa em algum canto e os papéis numa gaveta. Acho que ele conta do quadro pras amigas do chá, pra elas ficarem com inveja, sei lá.
O legal é que, se um dia ele tomar um porre licor de cassis e resolver abrir só um pouquinho pra ver, vai achar que quem destruiu a “obra de arte” foi ele mesmo. Mas de repente isso é parte do jogo, né? Eu que não entendo porra nenhuma de arte, mesmo.
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