A confluência arbitrária de alguns
fatores de pouca importância (uma leitura superficial do conceito
de “anarquismo epistemológico” de Feyerabent; o fortuito link à
análise etimológica de Heidegger do termo grego “ἀλήθεια”; e as
subsequentes e superpostas lembranças de certas pequenas fábulas de minha própria autoria) me levou,
esta madrugada, a uma epifania: a solução do debate entre positivistas e pós-modernistas
acerca da natureza da verdade talvez se encontre sob um manto semiótico.
Esclareço: a mais persistente crítica
contemporânea à validade do método científico diz respeito ao fator humano
(naturalmente subjetivo) envolvido na procura pelo conhecimento, e à demasiada
dependência deste a noções preconcebidas; cientistas, por sua
vez, repudiam tal “relativismo” como mera ignorância, e defendem o
paradigma como havendo sido construído sobre experiências bem-sucedidas e
comprovável sob similares circunstâncias em qualquer lugar e por qualquer um.
Existe aí, contudo, um meio-termo: a descoberta de novas evidências força
sempre uma reavaliação da ordem corrente, seja com a rejeição de uma ideia
previamente aceita, seja com a criação de uma teoria ad hoc (dependendo
da linha teórica por que se tem preferência). A revolução científica se dá
apenas mediante constante reexame (e eventual substituição) das verdades em
vigor.
Pode-se afirmar, então, que aquilo que
os pós-modernistas definem como “verdade” é, talvez ironicamente, um
conceito muito mais objetivo do que aquele de fato adotado pela ciência; ou,
para ser mais preciso, a definição da palavra que os detratores liberalmente
atribuem (no intuito de criticá-la) à busca do método científico está
equivocada. Talvez existam fatos imutáveis no universo, mas mesmo que os
alcançássemos nunca teríamos certeza de sua imutabilidade; nesse
sentido, uma acepção unificada do termo será inerentemente
subjetiva. Por outro lado, a perspectiva de mudança não deve tornar quaisquer
hipóteses vigentes menos válidas: enquanto justificadas, práticas e em
consonância umas com as outras, serão sempre verdadeiras.
Sugere-se, portanto, que
por “verdade” se entenda um fluxo singular e contínuo de significado; cada
percalço mudando a direção da corrente, mas nunca a dividindo. Como uma
espiral, eternamente virando sobre si mesma, cada vez mais longe do próprio
centro.
Tal proposição, é claro, redunda
completamente hipócrita, já que é questionável sob sua própria definição
(porquanto infalsificável); deve, assim, ser considerada falsa, ainda que em um
nível intangível não o seja. De uma forma ou de outra, eu precisava de um
terceiro texto este mês, então.
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