Dia desses,
quando eu ainda jogava Super Metroid, uma passada pela wiki (não que eu
precisasse de ajuda com uma parte difícil, claro que não; eu sou ótimo em sair
de Norfair pelo caminho certo e sem ter que atravessar uma sala cheia de
lava) me levou, de link em link, a descobrir um detalhe muito
interessante sobre certo trecho do jogo; um detalhe minúsculo, mas que levanta
questões profundas sobre a lógica dos videogames (e, quem sabe, da vida
real também).
Antes de eu
explicar, um pouco de contexto: o trecho a que eu me refiro é a batalha contra
um chefe chamado Draygon, um dragão/peixe/lagosta que passa o tempo todo ou
voando de um lado pro outro da tela ou cuspindo gosma pegajosa. O método mais
comum pra vencer o bicho é simplesmente desviar das investidas e disparar
mísseis na barriga dele (o que vai ficando cada vez mais difícil, porque ele se
move mais rápido quanto mais perto de morrer); mas existe um truque que torna a
coisa toda despudoradamente fácil: cada parede da sala tem dois canhões que
disparam bolas de energia; a ideia é explodir um deles, daí deixar que o
Draygon agarre a Samus (a personagem jogável) do chão e então mirar o grappling
beam (uma arma de raio que funciona como um gancho) no vão destruído e
faiscante. Em teoria, o que acontece é que a eletricidade é conduzida através
da armadura da heroína e atinge o monstro; na prática, só o que importa é que
ele morre em segundos com esse macete, poupando horas de ânimo e paciência
do jogador.
Agora, o detalhe
interessante que eu li a respeito é que, aparentemente, não é a
eletricidade que causa a morte do chefe. Hacks de Super Metroid mostraram que a
mesmíssima técnica pode ser usada também com os grapple points comuns,
esses que servem de eixo pra Samus se balançar (usando o grappling
beam como um cipó) e evitar abismos ou armadilhas. O caso é que, no
local onde a batalha acontece, os únicos grapple points disponíveis
são os destroços dos canhões; foi necessário adicionar um outro, não-elétrico,
no meio da sala pra provar que o Draygon morre de qualquer forma.
O grande enigma
aqui, então, é: do ponto de vista “de dentro”, pensando a questão como se
ela fosse real, o que é, afinal de contas, que mata o chefe?
Não é fácil
achar uma única resposta; eu até desenhei um diagrama (que eu não vou incluir
neste texto por motivos de: senso de ridículo) pra entender melhor a relação
entre os elementos, mas ainda daria pra argumentar por ambos os lados. Pode-se
dizer, acho eu, que seja uma questão de aparência versus realidade: a
eletricidade parece ser responsável, e é a culpada mais óbvia; mas um
exame mais minucioso (no caso, a “descoberta” dos hackers seria uma
metáfora do método científico) demonstra que essa suposição é errada. Ao mesmo
tempo, o hackeamento pode ser visto como uma interferência que altera o
resultado dos eventos; aí a versão “alterada” do jogo é considerada
fundamentalmente distinta da original, e qualquer detalhe particular a ela
passa a ser irrelevante.
Eu ainda tentei
imaginar uma analogia do problema com alguma situação mais palpável, mas acabou
sendo inútil; o paradoxo em si, eu tive que constatar, não é restrito
só à ficção, mas à forma de mídia que é o videogame. Ele depende de
uma anomalia, basicamente: um acontecimento que vai contra as leis do seu
próprio universo; mesmo a interpretação mais criativa de um livro ou filme, por
exemplo, não contradiz o que foi estabelecido pelo criador (geralmente o
foco é o que não foi estabelecido). Hackear um jogo, por outro lado, é
como inserir um personagem no meio de uma cena ou mudar a ambientação de um
capítulo, e então ver como as coisas se desenrolariam de acordo com as regras
que os programadores mesmos definiram. O código, o conjunto de leis que rege o
comportamento de todos os objetos dentro do mundo virtual, é tão parte da
narrativa quanto a backstory de qualquer série.
Ou seja: a
dissonância entre o que visivelmente acontece e o que com certeza aconteceria
é que permite que duas ideias opostas sejam verdadeiras ao mesmo tempo. Talvez
o negócio seja aceitar que a eletricidade é e não é o que mata o
Draygon, mesmo.
*
Numa nota
distinta mas não completamente desconexa, seria talvez oportuno colocar aqui
uma outra questão: se um dilema lógico não tem absolutamente qualquer
aplicabilidade na vida real, o quão relevante pode ser (mesmo que simplesmente
como exercício de pensamento) discuti-lo? Que insight isso pode nos dar
sobre o funcionamento do nosso universo, além de criar ainda mais perguntas sem
resposta? E em que ponto essas perguntas vão definitivamente perder todo o
valor semântico e virar só recursos retóricos? Quantas mais eu posso encaixar
aqui sem apresentar uma conclusão nem deixar o leitor sair achando que este
texto inteiro foi uma perda de tempo absurda? Boa noite.
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