É sempre
lamentável que se admita, ao fim de qualquer ato, que a razão deste tenha sido
a ausência de outro: um talvez mais relevante e único, talvez menos
meditabundo e melancólico. Que se estabeleça desde já, então, que este texto
carrega mais em si de apologia do que de apêndice; que foi escrito sob a plena
noção de que absolutamente nada mais serviria, e isso é tudo que se pode
afirmar em sua defesa.
Um homem muito sábio certa vez
disse: nossos pensamentos são as sombras de nossos sentimentos;
houve um tempo em que eu discordaria sem pensar. Um tempo em que eu me
imaginava perfeitamente transparente, perfeitamente nulo; quase como se
a minha câmera fosse uma ponte direta entre dois mundos, e eu não fizesse mais
que a carregar aonde ela quisesse (ou devesse) ir. Todo o amor e toda a
tristeza, o horror e o êxtase, eu só me permitia crer sentir ao cabo da edição,
quando já nada estaria sob meu poder.
Foi acompanhados dessa ingênua
inspiração que nós fomos gravar La Plata, como alguns quiçá se lembrem;
e, como todos fazem questão de mencionar, foi então que aquela “terrível
demonstração da ironia divina” (palavras repetidas, compartilhadas
e “noticiadas” à exaustão, na época) nos atingiu. Nós morremos;
sobrei eu. Eu e minha câmera, renascidos de um milagre, sobrevivemos para
seguir nosso trabalho sagrado.
A princípio, foi realmente essa a forma
que tomou meu luto: a de ainda mais ânimo, ainda mais determinação. Por eles,
diziam-me; é o que eles teriam querido. Contra a angústia e o choque, eu
fui em frente e terminei de contar a história que nós acháramos que precisava
ser contada; contra olhares que talvez me julgassem (se é que não fosse já
um sinal prematuro do remorso que eu viria a sentir), lutei para que o
documentário fosse distribuído e divulgado. Por mais que desde então o tenha
jogado fora, o Oscar que costumava se pavonear em minha estante dava-me a
sensação de ser um homem bem-sucedido.
Isso, é claro, foi antes da bebida, do
eco das vozes que sussurravam (não sei se por pena ou por escárnio) “não é
sua culpa”, dos remédios; antes das noites passadas em claro perguntando a
deus “por que eu?” aos gritos; antes da necessidade de dizer a mim
mesmo que deus não existe e que a vida é feita de acasos vazios, pois do
contrário teria perdido completamente o juízo.
Eu fiquei quieto. No início, o silêncio
parecia lógico; com o tempo, se tornou inevitável. Nunca chegou o momento certo
de me manifestar; eventualmente os jornalistas pararam de perguntar, as
esposas e maridos deixaram de me procurar, e eu me escondi em um casulo de
escapismo. Nunca mais usei minha câmera; nunca mais fiz a barba; nunca passei
do segundo capítulo de Em Busca do Tempo Perdido… E os anos passaram. Nossa
história nunca foi contada; no silêncio, em função do silêncio,
muitas abomináveis especulações nasceram. Eu acompanhei tudo pela internet,
onde os pudores e honrarias da mídia tradicional nem sempre têm efeito.
Aqui, tudo deveria ter um fim: eu
poderia pintar a mais bela e sanguinolenta descrição do acidente, em detalhes
gráficos e tom hollywoodiano, para saciar as perversões mais infames; ou, quem
sabe, simplesmente deixar uma nota de suicídio a quem quer que se importasse, e
fazer aquilo que já deveria ter feito há anos. Infelizmente, sou um covarde
íntegro: não mancharei a memória de meus amigos com sensacionalismos baratos, e
ainda devo viver um punhado de anos envergado sob o peso de minha consciência.
A verdade é que eu deixei passar todas as oportunidades cabíveis de redenção:
já milhares de vezes pensei em continuar de onde parei, completar La Plata com
a real história daqueles que arriscaram (e todos, exceto um, perderam) as vidas
para filmá-lo, enfim quebrar o silêncio… Mas não sou mais aquele jovem
transparente e ingênuo; a película que roda em loop por minha mente foi
por demais contaminada com anos de álcool, desejos secretos e lágrimas para
manter sequer um rasgo de legitimidade. Mais mal faria eu a revelando do
que continuando a guardá-la para minha própria e patética apreciação.
Não há conclusão; não mais que o selo na
tumba de uma memória enterrada viva. O ápice de meu egoísmo, eu bem sei. Nada
que eu pudesse relatar, contudo, viria a mudar qualquer coisa (com certeza
não para melhor, ao menos). Sigamos todos com as mesmas opiniões, as mesmas
raivas e as mesmas culpas. Isto era só, e era tudo, o que eu tinha para dizer.
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