Breve Compêndio de Pseudeisegeses III - Ex Chao‏

Dizem os estudiosos que o princípio de nosso Universo possivelmente tenha se dado a partir de um literal nada: flutuações energéticas no vácuo (ou seja, o surgimento espontâneo de partículas e antipartículas, tão minúsculas e efêmeras que não chegam a violar a lei da conservação de energia) teriam ocorrido sem cessar em um período anterior ao próprio tempo; a maioria delas era anulada tão logo quanto brotava, mas eventualmente uma durou o suficiente para causar um ligeiro desequilíbrio negativo e desencadear a expansão gigantesca que originou todo o cosmos. Em termos leigos: onde nada existia, algo apareceu (mediante as mesmas leis que ainda hoje podem ser observadas), e esse algo então fez com que o nada se inflasse em tudo.
Por nossa tão comum e triste falácia patética, poderíamos ver então na gênese cósmica um cinismo indesculpável. Que grande injustiça é essa que tolera que o Universo, nau maior da grande aventura humana, tenha-se originado do mero acaso? Mesmo à luz da ciência, longe dos confins do mito e da religião, parece absurdo que tudo que existe poderia nunca ter existido.
Talvez, contudo, essa seja só uma impressão minha.

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Eu recordo (com alguma vaguidão, é verdade) haver lido, anos atrás, um artigo sobre determinada palavra que fora incorporada por engano ao preeminente dicionário de língua inglesa Webster’s: tratava-se, caso não me falhe a memória, de certa abreviação que precedia um outro termo (este “verdadeiro”, corrente) a ser incluso na lista; e ocorreu que aquela foi tomada como o vocábulo em si, e este como a sua definição. O erro permaneceu quase uma década sem ser notado.
Uma anedota de pouca importância, sem dúvida, e até me causa estranheza que eu a tenha guardado na mente por tanto tempo. Não obstante, ainda hoje me pego ruminando, nos momentos de ócio contemplativo (que acabam sendo os momentos mais produtivos da vida), sobre a origem de tais fenômenos: somos sempre levados a crer que a linguagem, como toda forma de expressão humana, é fruto de nosso espírito intencional, o Geist que queria Hegel, superior em todos os aspectos ao que é natural e involuntário; exatamente por isso que existem as autoridades que se dedicam a manter essa pretensa “essência” da língua, das artes e da cultura. Eis, porém, que elementos como a palavra-fantasma do Webster’s vêm a se intrometer no sistema, de maneira inexplicável, por mera coalescência arbitrária de eventos desconexos. Mesmo os termos que contam com etimologia universalmente aceita podem, em última instância, derivar de outros erros, negligências e quaisquer demais desencontros ora perdidos na noite dos tempos; e nem mencionamos aí aqueles cuja origem é simplesmente desconhecida.
Redunda que, no grande esquema das coisas, a vontade pouco vale. Poderíamos estabelecer, por capricho ou por insegurança, que o sujeito que causou (ou permitiu) o surgimento dessas entidades foi seu “criador”; mas que diferença isso faria? Restaria ainda o fato de que a ação não foi proposital.
Perguntaria então o cínico: e daí?

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O motivo da Chaoskampf (“batalha contra o caos”, em alemão) é frequente em relatos mitológicos, particularmente aqueles de origem indo-europeia. Nele, um herói ou deus, representando a ordem, enfrenta um dragão ou serpente que representa o caos. Muitos paralelos já foram traçados entre tais lendas e o estilo de vida de seus respectivos povos; a necessidade de se compreender os mecanismos da natureza, assim como de se dominar os ímpetos selvagens dos membros da sociedade, foi o que lhes moldou o caráter religioso. Nesse ínterim, o caos se referia ao nível mais básico e profundo da psique humana, reprimido através da prática ritual.
Eu não lembro precisamente por que decidi incluir aqui este segmento (exceto que por um nebuloso senso temático), mas tenho certeza de que havia uma boa razão.

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A fria realidade (e eu me concedo ser patético, por fim) me consome. Eu tentei, juro que tentei; mas não importa o que eu escreva, não há força em mim que possa coordenar todo o fluxo de informação em uma direção somente. Onde quer que tenha havido uma passagem completamente honesta, reflexo de algum efeito real dos assuntos abordados sobre a alma do escritor, o leitor poderá ler apenas um recurso literário; e, é claro, vice-versa (este mesmo parágrafo sendo quiçá o maior exemplo). Tudo se encaixa hermeticamente como aquelas bonecas russas; a única maneira de quebrar o ciclo seria RÚCULA ANDRÔMEDA CARANGUEJOS DE 641641684268486

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