Dizem os
estudiosos que o princípio de nosso Universo possivelmente tenha se dado a
partir de um literal nada: flutuações energéticas no vácuo (ou seja, o
surgimento espontâneo de partículas e antipartículas, tão minúsculas e efêmeras
que não chegam a violar a lei da conservação de energia) teriam ocorrido sem
cessar em um período anterior ao próprio tempo; a maioria delas era anulada tão
logo quanto brotava, mas eventualmente uma durou o suficiente para causar um
ligeiro desequilíbrio negativo e desencadear a expansão gigantesca que
originou todo o cosmos. Em termos leigos: onde nada existia, algo apareceu
(mediante as mesmas leis que ainda hoje podem ser observadas), e esse algo
então fez com que o nada se inflasse em tudo.
Por nossa tão
comum e triste falácia patética, poderíamos ver então na gênese cósmica um
cinismo indesculpável. Que grande injustiça é essa que tolera que o Universo,
nau maior da grande aventura humana, tenha-se originado do mero acaso? Mesmo à
luz da ciência, longe dos confins do mito e da religião, parece
absurdo que tudo que existe poderia nunca ter existido.
Talvez,
contudo, essa seja só uma impressão minha.
*
Eu recordo
(com alguma vaguidão, é verdade) haver lido, anos atrás, um artigo sobre
determinada palavra que fora incorporada por engano ao preeminente dicionário de
língua inglesa Webster’s: tratava-se, caso não me falhe a memória,
de certa abreviação que precedia um outro termo
(este “verdadeiro”, corrente) a ser incluso na lista; e ocorreu que aquela
foi tomada como o vocábulo em si, e este como a sua definição. O erro
permaneceu quase uma década sem ser notado.
Uma anedota
de pouca importância, sem dúvida, e até me causa estranheza que eu a tenha
guardado na mente por tanto tempo. Não obstante, ainda hoje me pego ruminando,
nos momentos de ócio contemplativo (que acabam sendo os momentos mais
produtivos da vida), sobre a origem de tais fenômenos: somos sempre levados a
crer que a linguagem, como toda forma de expressão humana, é fruto de nosso
espírito intencional, o Geist que queria Hegel, superior em todos os
aspectos ao que é natural e involuntário; exatamente por isso que existem as
autoridades que se dedicam a manter essa pretensa “essência” da língua,
das artes e da cultura. Eis, porém, que elementos como a palavra-fantasma do Webster’s
vêm a se intrometer no sistema, de maneira inexplicável, por mera
coalescência arbitrária de eventos desconexos. Mesmo os termos que contam com
etimologia universalmente aceita podem, em última instância, derivar de outros
erros, negligências e quaisquer demais desencontros ora perdidos na noite dos
tempos; e nem mencionamos aí aqueles cuja origem é simplesmente desconhecida.
Redunda que,
no grande esquema das coisas, a vontade pouco vale. Poderíamos estabelecer, por
capricho ou por insegurança, que o sujeito que causou (ou permitiu) o
surgimento dessas entidades foi seu “criador”; mas que diferença isso
faria? Restaria ainda o fato de que a ação não foi proposital.
Perguntaria
então o cínico: e daí?
*
O motivo da Chaoskampf
(“batalha contra o caos”, em alemão) é frequente em relatos mitológicos,
particularmente aqueles de origem indo-europeia. Nele, um herói ou deus,
representando a ordem, enfrenta um dragão ou serpente que representa o caos.
Muitos paralelos já foram traçados entre tais lendas e o estilo de vida de seus
respectivos povos; a necessidade de se compreender os mecanismos da natureza,
assim como de se dominar os ímpetos selvagens dos membros da sociedade, foi o
que lhes moldou o caráter religioso. Nesse ínterim, o caos se referia ao
nível mais básico e profundo da psique humana, reprimido através da prática
ritual.
Eu não lembro
precisamente por que decidi incluir aqui este segmento (exceto que por um
nebuloso senso temático), mas tenho certeza de que havia uma boa razão.
*
A fria
realidade (e eu me concedo ser patético, por fim) me consome. Eu tentei, juro
que tentei; mas não importa o que eu escreva, não há força em mim que possa
coordenar todo o fluxo de informação em uma direção somente. Onde quer que
tenha havido uma passagem completamente honesta, reflexo de algum efeito real
dos assuntos abordados sobre a alma do escritor, o leitor poderá ler apenas um
recurso literário; e, é claro, vice-versa (este mesmo parágrafo sendo quiçá o
maior exemplo). Tudo se encaixa hermeticamente como aquelas bonecas russas; a
única maneira de quebrar o ciclo seria RÚCULA ANDRÔMEDA CARANGUEJOS DE
641641684268486
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