Kōan IV

A Epopéia de Gilgamesh, mais conhecido poema épico da antiga Suméria, é amplamente considerado o primeiro grande feito literário da História da humanidade. Seu enredo delineia a jornada ancestral, de influência imensurável, de um herói semi-divino em busca da imortalidade; vários de seus temas e episódios encontram-se replicados em outras renomadas obras, inclusive na Bíblia cristã (o mito do Dilúvio é um exemplo claríssimo). Mais peculiar do que tudo, no entanto, é o fato de que esse poema conta com diversos registros distintos ao longo dos séculos, não havendo uma única versão “oficial” de seu conteúdo.
Atualmente, isso talvez nos soe como um paradoxo: estamos acostumados ao acesso fácil e rápido a muito mais informação do que podemos assimilar, e rastrear as origens exatas de clichês e motivos modernos é tarefa banal; logo, quanto mais influente o elemento em questão, mais fácil lhe precisar a forma primordial. Assim, por mais que os contemporâneos contadores de histórias tenham toda a liberdade e o espaço para se expressar, existe ainda uma linha bastante nítida entre as narrativas canônicas e suas respectivas fan fictions. Um espectro de autoridade, algo inimaginável na aurora da literatura, ainda hoje insiste em permear nossos impulsos criativos.
Foi pensando nisso que eu concebi um pequeno projeto, inicialmente englobando apenas a mim e a alguns amigos próximos, mas que idealmente viria a atingir um largo número de colaboradores; meu intento era o de reacender o princípio primitivo da narração de histórias, e criar algo que escapasse à catalogação implacável dessa Biblioteca de Babel que é a internet. O conceito era bem simples: eu escreveria algo (talvez um romance completo, talvez um conto de umas poucas páginas), enviaria cópias desse algo a um seleto grupo, e então o deletaria completamente; caberia àqueles, então, construir e propagar suas próprias interpretações do trabalho. Como na era pré-escrita, quando as fábulas antediluvianas eram repassadas e reinventadas de forma oral, minha história não possuiria um centro original; como na infância da humanidade, o foco estaria nos sentimentos e reflexões de cada contador, e não em quaisquer questões, por assim dizer, “genealógicas”.
O enredo essencial que eu elaborei, em uma feliz coincidência (posto que se baseava em alguns outros meus escritos mais antigos), apresentava características de mito de criação; nomeei-o provisoriamente Conto da Sacerdotisa Imortal e da Porta da Verdade: nele, a personagem principal, Ashal (a sacerdotisa do título), se vê em um vazio perene, sozinha e amnésica; seu único passatempo em seus infindáveis anos é tentar decifrar os novecentos e noventa e nove segredos que selam a Porta da Verdade, na esperança de que o que há do outro lado a ajude a recuperar sua memória e identidade. Contudo, o último enigma parece-lhe insolúvel, e por milênios ela medita em vão; finalmente, convencida de que lhe falta a inspiração necessária para encontrar a resposta, Ashal decide dar à luz o mundo e tudo que nele habita.
A sacerdotisa passa em seguida mais algumas eras apenas nos observando, acompanhando nossa evolução e nossas explorações e conquistas particulares. A contemplação da existência de outros seres lhe abre novas possibilidades de raciocínio, e ela enfim consegue solucionar o segredo final; a revelação subsequente, entretanto, lhe deixa horrorizada: ocorre que Ashal é em realidade Lasha, divindade maior do Universo e criadora, é claro, da Porta da Verdade. Tomada de um surto de raiva cega, então, a personagem destrói o mundo, restitui os novecentos e noventa e nove enigmas e apaga a própria memória. O conto termina em uma nota pertinente: é impossível (quiçá mesmo à deusa) determinar quantas vezes esses acontecimentos já se sucederam.

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Esse malogrado esquema, juntamente como as linhas gerais da fantasia que o acompanharia, me surgiu de uma vez só, em uma noite entremeada de delírios de grandeza alimentados por álcool e más recordações. Não me pareceu assim, a princípio; mas as críticas não tardaram a refutar minhas ilusões: a primeira, e mais óbvia, foi direcionada ao egoísmo que eu nem percebia em minhas intenções. Ora, quem havia escrito a maldita história? Que direito teria eu de me crer “neutro”, de pôr minhas pobres ficções no mesmo nível daquelas compostas coletivamente por todo um povo, e esperar que meus amigos aceitassem o papel de meros compiladores? O mundo, talvez, nunca viesse a saber da verdade; mas eles saberiam! Algo há, chegaram a me dizer, de freudiano nessa pretensão.
Daí em diante, todo mínimo pessimismo era já suficiente para humilhar meu idealismo: “como você pode ter certeza de que ninguém vai expor o projeto?”, com certeza não posso; “uma vez publicado na internet, o texto não poderá ser completamente deletado”, de fato, é bem provável que não possa. Enfim, tudo se resumiu em uma sensação terrível de impotência; e, por conseqüência, de tempo terrivelmente desperdiçado.
Hoje, portanto, me abstenho por inteiro de qualquer atividade literária; vez que outra, ainda ouso ensaiar uns rabiscos tortos, mas é só. Passo meus dias, de forma muito mais proveitosa, escutando LPs de jazz suave e entalhando pequenas esculturas de madeira. Aliás, talvez esteja na hora de começar a fumar charutos.

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