Crônicas do Fim do Mundo XIV - Entregável

Todo dia eu enxergo um homem do outro lado da janela do meu escritório. Todo dia, no mesmo horário, ele aparece na rua; tira uma foto do muro, sempre do mesmo ângulo (sempre do mesmo muro), e vai embora. Meus colegas não veem o homem, porque o meu cubículo é o único com visão para a janela; mas todo dia, quando os computadores me dizem que são 18:47, ele aparece. É estranho, porque às vezes já é escuro quando isso acontece; mas eu não acho que os computadores mintam. O homem vem com uma lâmpada grande, tira uma foto do muro e vai embora.
Às vezes, quando eu tenho tempo, eu me pergunto o que ele faz com as fotos. Meus colegas me dizem que é bobagem. Quando eu falei um dia que queria seguir o homem depois do serviço, o Bob me respondeu que poderia ser perigoso. “Ele pode trabalhar pro Supervisor”, o Bob disse. Faz sentido. Talvez o homem seja o Supervisor; talvez ele nem tire foto nenhuma.
Ou talvez existam outros homens tirando fotos de outros muros; quem sabe até em horários diferentes. Talvez eles estejam fazendo um Relatório de Muros; ou um Relatório de Dias. Sempre as mesmas fotos, sempre dos mesmos ângulos (sempre dos mesmos homens), anexadas em um email para outra seção.
Eu tenho medo do que pode acontecer quando eles terminarem.

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