O meu amigo
Daniel sempre foi uma pessoa extremamente criativa. Nós nos conhecemos no
ensino médio, e já naquela época ele parecia ser um apaixonado pela vida e por
todas as oportunidades de ter experiências novas e se expressar e essa coisa
toda. Evidentemente, quando eu dei de cara com o corpo dele pendendo de uma
forca no meio da sala, foi um choque inexplicável.
Ele era
músico. O trabalho dele passava longe de qualquer definição de “tradicional”, e
na verdade nem sei se caberia em alguma
definição; eu tenho que admitir que demorei a me acostumar com um gosto tão...
Especial, vamos dizer. Ele sempre começava criando umas linhas melódicas
simples em instrumentos “normais” (por falta de um termo melhor), daí passava
uma a uma pro computador e ia distorcendo e mesclando tudo até ficar
irreconhecível e completamente surreal. Às vezes, acho que por acaso, isso
acabava esbarrando em movimentos e técnicas mais formais, tipo dodecafonismo,
microtonalismo etc.; mas eu não acredito que ele tivesse um conhecimento
teórico muito extenso, tudo acontecia realmente na base da experimentação e do
instinto. O que era importante pra ele era nunca se repetir, nunca se
conformar.
Depois do
suicídio, como quase sempre acontece, a popularidade da obra dele (que, aliás,
nunca tinha sido executada em público; ele mesmo gravava os EPs em casa e
distribuía entre uma meia dúzia de conhecidos) explodiu, e ele passou do nível
mais profundo do underground ao status de celebridade local; em todo lugar eu
encontro gente fofocando sobre a vida dele. Gente que antes nunca tinha ouvido
o nome Daniel Janus agora enche a boca pra falar sobre o “artista atormentado”
que ele supostamente era; sobre como as composições dele “refletiam uma mente
soturna e depressiva” (eu ouvi literalmente isso de uma velha no ônibus uns
dias atrás). Sim, no início eu também tinha pensado essas coisas; mas, desde
que passei a conviver com o Daniel de perto, eu percebi que ele era muito mais
do que um arquétipo. Ele era um ser humano extremamente complexo. Essas pessoas
que fingem se importar com o que aconteceu, as rádios e TVs, as gravadoras e
todas as empresas tão interessadas em fazer “homenagens” a ele, são só um bando
de aproveitadores que só querem lucrar com o luto dos outros.
Agora mesmo,
a orquestra da nossa cidade tá se organizando (e se debatendo ridiculamente, é bem
provável) pra arranjar algumas músicas dele em estilo mais clássico, pra um
concerto-tributo. O nome que eles escolheram não poderia ser mais imbecil: Empty Chambers, título de uma das faixas
do último EP, tirado completamente de contexto. Tenho certeza de que o Daniel,
se estivesse vivo, iria rolar no chão de tanto rir disso.
Eu sei que,
no fim das contas, também não é meu direito criticar a hipocrisia dessa gente;
eu era um dos poucos amigos verdadeiros que ele tinha, e nunca notei um sinal de que... Não sei, de que essa
tragédia fosse acontecer. Só isso que me incomoda nesse circo todo, na verdade;
uma única coisa, que me arranca lágrimas de raiva e não me deixa dormir: se a
depressão do Daniel era tão visível pra pessoas que nem sabiam que ele existia;
se todo mundo aparentemente se preocupava tanto; enfim, se era tão óbvio que
ela ia tirar a própria vida, por que ninguém ofereceu ajuda antes?
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