Livros Líquidos


Às vezes sinto um desconforto, uma forma de estranheza interna, lendo livros de papel. Parece discordante que o objeto da leitura, um exercício primariamente mental, seja algo físico; minha mão acaba se cansando, e eu me pergunto o que ela faz ali.
O próprio formato do livro é desarmônico com sua natureza. O que são páginas, o que são linhas e letras pra quem lê? Divisões anacrônicas de um todo, insensíveis a sua vontade. O livro é uma fatia do mundo humano, perfeito em suas fantasias e realidades; e, visto de fora, não faz sentido que se submeta ao tempo: também os deuses, se existem, enxergam o universo todo como uma coisa só, e o fluxo temporal é só uma ilusão para os reles mortais.
Às vezes me pego desejando um livro líquido, cujo conteúdo possa vazar pelas lacunas de sua carcaça inútil para uma vasilha em que eu possa degustá-lo às colheradas, digerindo-o no ritmo, frequência e intensidade que eu achar melhor.

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