Partindo-se
de uma perspectiva da ontologia estritamente fenomenológica, chegando às raias
do solipsismo (do qual podemos fugir, mas nunca efetivamente nos afastar),
deparamo-nos com toda uma nova classe de “coisas”, se assim quisermos chamá-las,
que talvez nos tenha passado despercebida: essas “quase-coisas” são sequelas da
busca constante de nossos cérebros por padrões reconhecíveis no caos de dados
que são recebidos a todo momento. Aí não se encaixam apenas os erros básicos da
tão humana pareidolia; com efeito, qualquer coisa
que se possa interpretar de um conjunto momentaneamente indistinguível
emerge como uma entidade objetiva, mesmo que um instante depois a reconheçamos
como meramente uma combinação de partes quaisquer de outras coisas.
Ocorre que,
não existindo esse segundo momento de reflexão, por força do acaso ou de algum
interesse particular, a quase-coisa assume em definitivo uma identidade
própria: passa a ser, para todos os efeitos, uma coisa para a qual há um nome, que passa a ser signo e por si um
padrão que a mente posteriormente identificará. Quem já procurou fantasmas nos
tons indistintos de uma noite escura o compreenderá de pronto.
Há,
entretanto, uma conotação que é um tanto mais sutil e subterrânea (e, portanto,
mais perigosa) neste comentário: depois de apropriadamente inclusa no idioma,
imediatamente identificável por qualquer mortal, a quase-coisa, agora
promovida, passa, pela tendência natural da humanidade de evitar a mudança a
qualquer custo, a ser intocável. Ainda que destrutível por qualquer mísero
sopro de lógica, será inexoravelmente defendida pelo sistema límbico dos
falantes, sempre pronto para se autorrecompensar ao reforçar um conceito já
plenamente sedimentado; dificilmente poderá ser, como queria certo filósofo de
nosso passado, desconstruída.
Em outras
palavras: na prática, qualquer coisa
pode, de fato, ser uma quase-coisa;
qualquer ideia pode ter falhas tão elementares que só não vemos por puro
comodismo; e quem se atreverá a mergulhar nas profundezas da linguagem para
desvendá-las? Ainda vemos fantasmas...
Nenhum comentário:
Postar um comentário