De todas as chamadas “tribos” que se organizaram no mundo virtual neste fim de século, cujas filosofias e formas de auto-reconhecimento permeiam o comportamento de grande parte da massa de jovens adultos que ainda subsiste na superfície, uma das menos conhecidas e catalogadas é “El Hombre Ocelotl”, possivelmente por seu uso apaixonado (alguns diriam “fanático”) do espanhol, na contramão da tendência mundial, e seu desdém pelos esforços quase desesperados da Academia destes dias. De origem primariamente latino-americana e com fortes ligações com a mitologia pré-colombiana, os escritos de Stirner, Nietzsche, Kafka e Camus, o punk rock e a cultura da internet, o grupo conquistou adeptos ao redor do planeta mediante uma rejeição irônica a qualquer forma de autoridade e um resgate ao espírito de do it yourself e amor fati no encarar a realidade do pós-guerra; talvez, aliás, seja pela ênfase no indivíduo que dados sobre o grupo em si sejam tão escassos.
Como sugere o nome, o símbolo máximo da tribo é o próprio hombre ocelotl, sendo o segundo termo a palavra em náuatle para “jaguar”, figura fortíssima na tradição mesoamericana: um ser liminar, metade homem, metade fera (na literatura anglo-saxã, usa-se inadvertidamente o prefixo were, seguido do nome de um animal qualquer, para se referir a toda essa classe de criaturas mitológicas; apesar de, portanto, o equivalente no caso ser “werejaguar” em vez de “werewolf”, por convenção usaremos aqui “lobisomem”). Diversas explicações surgiram para o uso de tal incomum mascote, a maioria focando-se exatamente na liminaridade do ser, em sua posição numa zona neutra, gray e independente, distante (se não acima) de qualquer senso de moralidade ou obrigação.
Sedgwick et al. (2093), contudo, nos oferecem uma visão diferente, um tanto mais aprofundada que as demais: o lobisomem como um signo da ambigüidade do conceito de “conhecimento”, carregando em si uma conotação de rebeldia à ciência e daí o desapego niilista.
A fusão de homem e besta é, sabemos, um arquétipo milenar; apesar disso, é uma imagem extremamente subjetiva. Mesmo que víssemos, com nossos próprios olhos, uma criatura mista de homem com lobo, não poderíamos categorizá-la, pois não saberíamos com certeza se aquela particular mistura de características humanas e lupinas seria a que constitui um lobisomem “de verdade”. A questão da identidade, já dizia Derrida, a resolvemos pela diferença: um homem é um homem porque não é um cachorro, uma tartaruga, uma barra de chocolate, um taco de bilhar ou, mais importante, uma mulher ou uma criança; falta-nos uma referência, no caso do lobisomem, para podermos distingui-lo no imenso espaço que existe entre um homem e um lobo.
O que El Hombre Ocelotl pretende ao usar tal criatura como símbolo é ressaltar essa característica, esse problema da nossa epistemologia: o fato de, na base de todo conceito científico justificado e verdadeiro, existir uma camada de “regras” que são aceitas como simplesmente senso comum, ou então ficamos presos em um regresso infinito de proposições e justificativas. Ou seja, sob a atual noção de “conhecimento”, um lobisomem não é menos discernível da Unidade Universal do que um homem (ou uma barra de chocolate, ou um taco de bilhar...); e, pela ironia da situação, representa perfeitamente o ceticismo mordaz dos que o usam como bandeira.
Ironia maior, há de se comentar, é que um grupo anti-acadêmico, que se auto-marginaliza em favor da individualidade de cada membro, se preste a elaborar uma filosofia comum tão complexa. Inevitável supor que, ou a teoria da crítica epistemológica é uma grande coincidência, ou eles se deram a uma pequena incoerência por um nobre (em seus próprios termos) objetivo maior.
Ou, quem sabe, a própria existência do grupo seja uma farsa, seus supostos líderes um punhado de garotos desocupados e essa discussão uma conseqüência prevista e intencional de uma patética (ainda que colossal) practical joke, de qualquer forma no intuito de provar a futilidade da racionalização exagerada. Mas isso já é assunto para outro ensaio.
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