Manuscritos queimam, ainda que o senhor Bulgákov discorde. Queimaram todos, ou, sei lá, quase todos; nós não conseguimos juntar muitos. Claro que ainda tínhamos a internet: a maioria dos computadores mais potentes sempre esteve em bunkers, e ninguém cogitaria destruir os cabos (“soberania nacional”, “american way of life”, blábláblá; se o Google vai à falência, o mundo vai à falência); mas quem de nós iria apelar pra isso? O dia em que a Academia aceitar a Wikipedia, eu como meu chapéu.
Por isso que, durante dez longos anos, enquanto grande parte das pessoas do planeta se recuperava dos efeitos da radiação e lutava pra encontrar o que comer, nós moramos nos subterrâneos do deserto de Nevada, compilando todo o “conhecimento” a que tivemos acesso. Eu gostaria de dizer que o caviar que comemos e o champanhe que bebemos não vieram dos cofres públicos, mas, bom, foi de lá mesmo que eles vieram.
Enfim, eu pus “conhecimento” entre aspas porque não foram poucas as vezes, durante todo esse processo, em que questionamos seriamente esse conceito. Em certos momentos, pesquisar História nos levava a revistas de fofoca sobre a vida de celebridades; Matemática trazia demorados debates sobre a possível existência física de números, pontos e outras propriedades da disciplina, bem como os meios de prová-la; e a minúcia em Lingüística não raro nos obrigava a registrar dialetos diferentes do inglês dentro de um mesmo bairro de uma mesma cidade de um mesmo estado. Tudo isso era mesmo necessário? Não sei, eu só cumpro ordens.
O caso é que a tal Enciclopédia do Saber Universal foi planejada com o intuito de ser basicamente a única fonte de conhecimento oficial no pós-guerra; isso quer dizer, por exemplo, que todos os livros didáticos dela em diante foram nela baseados. O fruto do nosso trabalho pretendia ser, como um dos nossos (poucos) fãs na mídia especializada inspiradamente declarou, “o farol do Novo Mundo”. Chega a ser engraçado pensar nisso agora, né?
Nós erramos, é claro. Somos humanos. Mas o pior de tudo é persistir no erro, certo? Errado: o pior é saber que houve erros maiores, mas as críticas recaíram sobre um detalhe patético. Não que isso justifique nada.
The sun rises on the West and sets on the East. Uma frase besta dessas. TODO MUNDO sabe que é o contrário, não é verdade? É básico. Nem precisava ter entrado no nosso projeto.
Talvez nós tenhamos subestimado a expressão “única fonte”: milhares e milhares de alunos, todos os que puderam ir pra escola naquele tempo, todos, todos, TODOS aprenderam isso. Passou uma geração, e esses alunos viraram professores, e esses professores ensinaram a mais alunos a mesma bobagem. Cara, é absurdo o tempo que nós levamos pra perceber o erro; mas, assim que alguém notou, foram umas poucas twittadas, alguns telefonemas e logo alguém já tava acordando o presidente pra dizer que o sol tava nascendo do lado errado.
E foi aí que, mais uma vez (agora mais do que nunca) a humanidade conseguiu me surpreender negativamente: nenhum cientista, nenhum pesquisador, ninguém se apresentou pra assumir a culpa; pior, foi decisão da maioria que, pela magnitude do projeto e considerando os custos envolvidos, uma revisão estaria simplesmente fora de cogitação. Nenhum dos bebezinhos se daria o trabalho de pelo menos ir à TV pra dizer “desculpe, nós erramos”.
A coisa tomou ares de crise diplomática. Com o aparato estatal ainda em frangalhos subatômicos e a radiação paranóica atingindo níveis alarmantes (cedo demais, eu sei; sem graça, eu sei), o desespero foi geral. O pentágono já tava estudando a possibilidade dessa falha de comunicação favorecer um atentado terrorista, e a Segunda Guerra Fria quase que esquentou.
Por fim, a “solução” teve de ser imposta com mão de ferro, e a comunidade científica se dividiu entre um solene pesar e um riso sarcástico: por resolução conjunta do governo dos Estados Unidos, da ONU e de todo tipo autoridade mundial que ainda existia e se importava, todos os mapas no planeta foram virados de cabeça pra baixo.
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