Em um futuro não muito remoto, tensões entre facções religiosas em nações emergentes enredam-se aos interesses de grandes grupos econômicos, desencadeando um conflito bélico que eventualmente acaba na destruição física da civilização mundial. Felizmente, a imagem das relações sócio-culturais permanece na segurança do mundo virtual: Twitter, Facebook, Tumblr e outras redes sociais semelhantes passam incólumes à guerra.
Nessa nova realidade, onde predomina o niilismo e o misoteísmo, a imensa maioria dos habitantes da Terra simplesmente abandona o contato interpessoal e o trabalho, subsistindo do que pode ser adquirido individualmente e com pouco esforço (o que geralmente varia entre uma pequena horta no quintal a restos de comida encontrados pelas ruas) e passando a maior parte do tempo conectada.
Eis que, para inspirar a pós-humanidade com um pouco da primitiva noção de espiritualidade (bem como movimentar a até aí emperrada máquina social), surge então a Igreja Pan-Henoteísta Apoteótica Universal (a princípio, também “Internética”, resultando no acrônimo IPHAIU), cujo slogan é “Crie seu próprio deus de graça!”. Segundo a Igreja, qualquer entidade ou coisa, imaginária ou não, pode ser deificada: “você mesmo, outra pessoa, seu cachorro, uma lata de atum”; e a única restrição é não mexer com a crença dos outros, “afinal de contas, nós não queremos uma briguinha religiosa, queremos?”. O esforço em evitar discussões teológicas é evidente em dogmas como “Todo deus concebível é verdadeiro e real, e você não pode provar o contrário.”. De fato, pela lógica da doutrina, é impossível não ser um membro: “Se você louva a um Deus, qualquer Deus, você é membro da Igreja; se você não louva a Deus nenhum, ainda assim você é membro da Igreja. Nós não obrigamos você a fazer nada, cara.”
Não muito surpreendentemente, a nova crença é um sucesso: muitos se sentem confortáveis em extravasar a pressão de seus egos, declarando-se deuses; enquanto que outros se devotam a sua vocação, de origem patológica ou não, em servir. Celebridades da internet, racionais e irracionais, arrebatam milhares de seguidores, e algo semelhante a uma neo-globalização se estabelece, com indivíduos no lugar de empresas: apenas o antigo modelo monetário é abandonado, a nova economia baseando-se em troca de mercadorias e trabalho escravo (sempre seguindo, é claro, um dos princípios básicos da Igreja: “Só escravize quem quiser ser escravizado”). Por um tempo, parece que tudo vai bem.
Entretanto, os primeiros problemas logo começam a aparecer: deuses aparentemente promissores levam à especulação do número de fiéis, mas a dinâmica das relações virtuais faz com que a cada dia surjam divindades mais carismáticas, gerando um rombo na bolsa internacional; eventualmente, muitos que eram louvados passam a ter que servir outros deuses maiores, e se faz uma espécie de hierarquia no panteão não prevista no plano original. Simplesmente não há seguidores suficientes para todos que querem ser deificados.
O ponto crítico do novo sistema se dá com o nascimento de um agitador, filho de um servo de um servo de um servo de um popular vlogger do Youtube, que se atreve a pregar a revolução contra a Igreja. Segundo ele, esta é injusta e desonesta, apenas a fachada de uma conspiração de um pequeno grupo de deuses para dominar os meios de produção utilizando orações como moeda e se aproveitando da fé compulsória daqueles que falhavam em atingir o status divino; a própria noção de politeísmo, aliás, seria uma ferramenta alienante que impediria as pessoas de perceber os fatos e praticar a solidariedade, sendo a própria humanidade a verdadeira Deusa do mundo.
Por essa afronta aos deuses, o rebelde é crucificado (figurativamente, é claro: sua conta no Facebook é excluída, de forma que é como se ele nunca houvesse existido), mas já é tarde demais. Agora os fiéis, aqueles que só se ajoelhavam para os outros, exigem ser tratados como filhos da Deusa (outra metáfora, naturalmente; embora o rebelde, por algum motivo, fosse de fato considerado divino) e, portanto, iguais ao resto da população mundial. Os antigos deuses, temendo perder sua reputação, suas mordomias e seus seguidores no Twitter, apressam-se em abraçar a nova fé. Põem acima de si o revolucionário que eles mesmos relegaram ao ostracismo internético. Juntando retalhos da IPHAIU com alguns do novo culto, criam uma novíssima Igreja.
Ao redor dela, todo um novo arranjo social, novos princípios morais e éticos, nova etiqueta, novos costumes. Logo é necessário criar novas instituições para proteger a integridade da nova doutrina; porque, evidentemente, logo surgem divisões, cismas, bifurcações. Nações se erguem e caem, soldados morrem e nascem, sempre em nome do mesmo ideal; defender a fé, aliás, se torna um negócio lucrativo para os que ficam por trás, só assistindo: publicitários ganham rios de dinheiro buscando formas cada vez mais sexy de propaganda virtual de alistamento. De repente, alguém resolve que o inimigo está conspirando contra a situação, e inventa uma solução final, um massacre étnico, um atentando suicida contra um prédio ou dois. Uma bomba atômica.
Em um futuro não muito remoto, tensões entre facções religiosas em nações emergentes enredam-se aos interesses de grandes grupos econômicos, desencadeando um conflito bélico que eventualmente acaba na destruição física da civilização mundial.
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