Paradoxos Lógicos da Era 16-bit

Dia desses, quando eu ainda jogava Super Metroid, uma passada pela wiki (não que eu precisasse de ajuda com uma parte difícil, claro que não; eu sou ótimo em sair de Norfair pelo caminho certo e sem ter que atravessar uma sala cheia de lava) me levou, de link em link, a descobrir um detalhe muito interessante sobre certo trecho do jogo; um detalhe minúsculo, mas que levanta questões profundas sobre a lógica dos videogames (e, quem sabe, da vida real também).
Antes de eu explicar, um pouco de contexto: o trecho a que eu me refiro é a batalha contra um chefe chamado Draygon, um dragão/peixe/lagosta que passa o tempo todo ou voando de um lado pro outro da tela ou cuspindo gosma pegajosa. O método mais comum pra vencer o bicho é simplesmente desviar das investidas e disparar mísseis na barriga dele (o que vai ficando cada vez mais difícil, porque ele se move mais rápido quanto mais perto de morrer); mas existe um truque que torna a coisa toda despudoradamente fácil: cada parede da sala tem dois canhões que disparam bolas de energia; a ideia é explodir um deles, daí deixar que o Draygon agarre a Samus (a personagem jogável) do chão e então mirar o grappling beam (uma arma de raio que funciona como um gancho) no vão destruído e faiscante. Em teoria, o que acontece é que a eletricidade é conduzida através da armadura da heroína e atinge o monstro; na prática, só o que importa é que ele morre em segundos com esse macete, poupando horas de ânimo e paciência do jogador.
Agora, o detalhe interessante que eu li a respeito é que, aparentemente, não é a eletricidade que causa a morte do chefe. Hacks de Super Metroid mostraram que a mesmíssima técnica pode ser usada também com os grapple points comuns, esses que servem de eixo pra Samus se balançar (usando o grappling beam como um cipó) e evitar abismos ou armadilhas. O caso é que, no local onde a batalha acontece, os únicos grapple points disponíveis são os destroços dos canhões; foi necessário adicionar um outro, não-elétrico, no meio da sala pra provar que o Draygon morre de qualquer forma.
O grande enigma aqui, então, é: do ponto de vista “de dentro”, pensando a questão como se ela fosse real, o que é, afinal de contas, que mata o chefe?
Não é fácil achar uma única resposta; eu até desenhei um diagrama (que eu não vou incluir neste texto por motivos de: senso de ridículo) pra entender melhor a relação entre os elementos, mas ainda daria pra argumentar por ambos os lados. Pode-se dizer, acho eu, que seja uma questão de aparência versus realidade: a eletricidade parece ser responsável, e é a culpada mais óbvia; mas um exame mais minucioso (no caso, a “descoberta” dos hackers seria uma metáfora do método científico) demonstra que essa suposição é errada. Ao mesmo tempo, o hackeamento pode ser visto como uma interferência que altera o resultado dos eventos; aí a versão “alterada” do jogo é considerada fundamentalmente distinta da original, e qualquer detalhe particular a ela passa a ser irrelevante.
Eu ainda tentei imaginar uma analogia do problema com alguma situação mais palpável, mas acabou sendo inútil; o paradoxo em si, eu tive que constatar, não é restrito só à ficção, mas à forma de mídia que é o videogame. Ele depende de uma anomalia, basicamente: um acontecimento que vai contra as leis do seu próprio universo; mesmo a interpretação mais criativa de um livro ou filme, por exemplo, não contradiz o que foi estabelecido pelo criador (geralmente o foco é o que não foi estabelecido). Hackear um jogo, por outro lado, é como inserir um personagem no meio de uma cena ou mudar a ambientação de um capítulo, e então ver como as coisas se desenrolariam de acordo com as regras que os programadores mesmos definiram. O código, o conjunto de leis que rege o comportamento de todos os objetos dentro do mundo virtual, é tão parte da narrativa quanto a backstory de qualquer série.
Ou seja: a dissonância entre o que visivelmente acontece e o que com certeza aconteceria é que permite que duas ideias opostas sejam verdadeiras ao mesmo tempo. Talvez o negócio seja aceitar que a eletricidade é e não é o que mata o Draygon, mesmo.

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Numa nota distinta mas não completamente desconexa, seria talvez oportuno colocar aqui uma outra questão: se um dilema lógico não tem absolutamente qualquer aplicabilidade na vida real, o quão relevante pode ser (mesmo que simplesmente como exercício de pensamento) discuti-lo? Que insight isso pode nos dar sobre o funcionamento do nosso universo, além de criar ainda mais perguntas sem resposta? E em que ponto essas perguntas vão definitivamente perder todo o valor semântico e virar só recursos retóricos? Quantas mais eu posso encaixar aqui sem apresentar uma conclusão nem deixar o leitor sair achando que este texto inteiro foi uma perda de tempo absurda? Boa noite.

Notas da Tradução do "Columbarium" de Olivia Tomokawa

#22 - concernente à etimologia de "イーガルっぽい" (iigaruppoi)

Outro bom exemplo do caráter maravilhosamente complexo desta obra: a frase "イッヒュ が イーガルっぽい アニマル を アスペクシー." (ihhyu ga iigaruppoi animaru o asupekushii), inclusa no "monólogo" do Sonho nº15, carrega tantas conotações sobrepostas que talvez tenha representado, sozinha, nosso maior desafio em toda a adaptação. Aqui (como no restante do capítulo) a sintaxe é puramente japonesa, se bem que "ocidentalizada": percebe-se um esforço consciente por parte da autora em evitar construções, por assim dizer, "exóticas" a ouvidos indo-europeus; e a estrutura das frases, todas iniciadas por "eus" de diversos idiomas e completas com verbos em latim, sugere uma reprodução ou paródia do estilo bíblico, particularmente do Apocalipse de São João. O tom grandiloquente e profético, repleto de simbolismos, concilia-se perfeitamente com os temas de morte e renascimento que permeiam estas páginas.
O detalhe essencial, contudo, é a palavra "イーガルっぽい" (iigaruppoi), mencionado apenas essa única vez em todo o livro (constituindo, portanto, um hápax legómenon): o sufixo nativo "-っぽい", escrito em hiragana, corresponde inegavelmente ao "-like" inglês nesse contexto; "イーガル", por outro lado, é bem mais difícil de se compreender. A maior parte das traduções internacionais o lê "eagle" (seguindo o exemplo da primeira edição americana, onde se encontra "I have beheld an eagle-like animal"), rendendo sempre algo semelhante a "Eu vi um animal como a águia"; diversas versões alemãs, todavia, preferem adaptar o trecho como "Ich habe ein igelartiges Tier angeschaut", ou seja, "Eu vi um animal como o ouriço". Algumas destas últimas o fazem de forma irrefletida; outras reconhecem a ambiguidade do termo, e tentam, em apêndices como este, oferecer alguma justificativa (como, por exemplo, o fato de a frase começar com "ich") para sua escolha.
Agora, é claro que, para esta nossa tradução do Columbarium, tal minúcia não deveria ser relevante em absoluto; "Igel" e "eagle" são leituras igualmente válidas de "イーガル", e a passagem em questão é por demais obscura e surreal para elucidar o problema. Feita uma leitura superficial da obra, e consideradas as tentativas prévias de tradução, estaríamos em nosso pleno direito caso resolvêssemos relegar a decisão entre as duas possibilidades (ou quaisquer outras que por acaso existam) aos dados do destino.
E é claro também que, como é de praxe em nossa profissão, a solução não é assim tão fácil.
Ocorre que os seguidores da senhorita Tomokawa já vêm desenvolvendo, há muito tempo (conforme pudemos verificar, desde antes de a autora atingir notoriedade internacional), suas próprias ideias sobre a identidade do iigaruppoi animaru. Certa teoria, bastante difundida, especula que haja ligação entre este e o ハリネズミ (Harinezumi, máquina de guerra descrita como um tanque recoberto de espigões) mencionado no Sonho nº5. O fato de existir aí um elemento designado abertamente pelo termo japonês para "ouriço" talvez implicasse que "イーガル" devesse denotar outra criatura; entretanto, a teoria afirma exatamente o oposto: que o "animal como o ouriço" é o Harinezumi (o emprego do alemão naquele caso não carregando em si qualquer significado especial), e que o cenário apocalíptico pintado pelo monólogo do Sonho nº15 se refere a um Apocalipse literal, um conflito armado de proporções aterradoras que subjazeria ao enredo de ambos os capítulos.
Ramificações dessa hipótese, é bom adicionar, envolvem o livro inteiro em uma narrativa única, tão ampla quanto tácita; algumas chegam mesmo a atribuir qualidades sobrenaturais aos relatos oníricos, tratando-os por verdadeiras profecias.
Parte do nosso trabalho aqui, portanto, é tentar adivinhar o que a autora poderia ter querido dizer com o que de fato disse; embrenhar-se no sentido fundamental da obra, ainda que a contragosto. Por um lado, talvez acabe por afetar a suspensão de descrença dos fãs que uma obra apresentada como simples compilação de sonhos possua, afinal, uma trama tão concreta e abrangente; por outro, quem há de dizer que não era essa mesmo a proposta? Não precisará o leitor desta labiríntica pérola que lhe sejam expostos, a esta altura, os muitos e extraordinários caminhos que a ficção pode tomar.
São situações como esta, enfim, que revelam a delícia e o tormento de nosso ofício: quando não se tem opção além de interferir ativamente naquilo que, por definição, deveríamos meramente transportar de um idioma a outro. Nestes casos, só nos resta torcer para que, mais do que estar "certos", estejamos suficientemente inspirados para a tarefa.

Patética Dialética

Eu não me considero exatamente uma pessoa cética. Às vezes, como os bokononistas daquele livro do Vonnegut, eu prefiro aceitar uma meia-verdade ou uma mentirinha inócua pelo bem da minha sanidade; a minha opinião muda com tanta freqüência que no fim das contas nem faz diferença. Mas, de qualquer forma, esta história não é sobre mim; esta é a história de um confronto épico e acirrado entre ideias igualmente estúpidas, e de como isso pode ser tão fascinante quanto é fútil.
Foi num fim de semana desses, tarde da noite; eu tava matando tempo num fórum sobre paranormalidade (eu acho um tópico interessante; não me julguem) e coisa e tal. Se vocês já frequentaram um site desse tipo, eu não preciso nem comentar quais são geralmente os assuntos: leituras de tarô, creepypastas, conspirações sem pé nem cabeça... Nada de muito promissor ou original, pra variar. Por mais que a gente queira acreditar, a maior parte das postagens é tão besta e vaga que é preferível continuar em dúvida.
Só que, claro (ou eu não teria começado a escrever isto em primeiro lugar), uma delas acabou se sobressaindo: um texto longo e pretensioso intitulado “a verdadeira magia”. A proposta já parecia intrigante pelo nome, mas o que chamou a minha atenção foi a menção a Gabrielle Madison; apesar de eu não ser um fã inveterado, o meu pai tinha vários dos livros dela (até é possível que tenham sido eles que despertaram em mim o gosto pelo oculto), e acho que eu posso dizer que entendo alguma coisa a respeito. Depois de decidir ir dormir assim que terminasse, então, eu fechei as outras abas e fui ler.
De cara deu pra ver que aquilo tinha saído da cabeça de alguém com uma paixão profunda (quase uma obsessão) pela obra da escritora; o estilo era aquela boa e velha salada pós-moderna de viagem surreal e jargão técnico, como o da própria. Se não fosse pelas referências a teosofia e Lovecraft, eu iria até pensar que era um caso de psicografia. Enfim, o cerne da coisa era uma reinterpretação de Pieces of Reality, partindo do razoável pressuposto de que o “mundo total” existe só dentro dos nossos cérebros (o autor nem tentou explicar como eles seriam conectados, mas eu imagino que isso não seja tão importante); uma espécie de solipsismo compartilhado, por mais contraditório que isso seja. Daí que os nossos “bugs mentais” não só afetariam a nossa própria percepção, mas em determinados casos a dos outros também: a “verdadeira magia” do título seria o domínio das “chaves” responsáveis por cada efeito, que (como nas falhas na lógica de um programa) na prática pareceriam completamente desconexos.
A conclusão que arrematou a teoria foi que todos os sistemas de magia e mistérios da História seriam como os “cultos à carga” melanésios: todos nascidos e esquematizados na tentativa dos nossos ancestrais de imitar os rituais reais (imitar de quem foi outra questão que ficou no ar; provavelmente astronautas alienígenas, como de costume), que eles simplesmente não conseguiam decifrar. Ou seja, tudo aquilo em que noventa por cento dos frequentadores do fórum acreditava seria bobagem pura.
Não demorou pra polêmica começar. Primeiro, vários seguidores da pensadora original (que por sinal eu nem sabia que existiam, que dirá que eram tantos) resolveram se manifestar: aquele “revisionismo” aparentemente só “manchava” uma hipótese de “correção científica perfeita” (palavras deles, é óbvio).  O OP então replicou, e foi  acompanhado por alguns recém-convertidos, que o ensaio dele era uma “progressão natural” das ideias da Madison; segundo ele, além de fazer ainda mais sentido, a nova tese esclarecia por que milênios de tradição esotérica não conseguiram nunca provar “a existência ou a efetividade dos seus princípios”. Esse último ponto atraiu pra briga também uma meia dúzia de místicos mais tradicionais, que retrucaram que a magia existe, sim e só não “funciona” pra quem não acredita/não é iluminado o suficiente. E, é claro, os trolls se misturaram a todas as facções, dando bomba só pra bagunçar a discussão.
Eu observei o debate por uns bons minutos, por várias divagações e digressões e insultos gratuitos; não sei se o que me prendeu foi a intensidade da conversa ou se no fundo eu queria acreditar que um dos lados tava certo. Talvez fosse tédio, mesmo. Pra resumir a fábula, eventualmente eu me convenci de que ninguém ali pretendia (ou tinha como, quem sabe, né?) apresentar evidências ou rebater premissas; só o que aconteceu foi que eu gastei meu precioso tempo entre argumentos de autoridade, numa disputa de egos sem sentido nenhum.
Logicamente, eu decidi naquela mesma hora dar um tempo com as pesquisas sobrenaturais; fechei o navegador e, assim que eu terminar de escrever este texto, vou fazer de conta que nunca ouvi falar dessa história.