Eu não me considero exatamente uma
pessoa cética. Às vezes, como os bokononistas daquele livro do Vonnegut, eu
prefiro aceitar uma meia-verdade ou uma mentirinha inócua pelo bem da minha
sanidade; a minha opinião muda com tanta freqüência que no fim das contas nem
faz diferença. Mas, de qualquer forma, esta história não é sobre mim; esta é a
história de um confronto épico e acirrado entre ideias igualmente estúpidas, e
de como isso pode ser tão fascinante quanto é fútil.
Foi num fim de semana desses, tarde da
noite; eu tava matando tempo num fórum sobre paranormalidade (eu acho um tópico
interessante; não me julguem) e coisa e tal. Se vocês já frequentaram um site
desse tipo, eu não preciso nem comentar quais são geralmente os assuntos:
leituras de tarô, creepypastas,
conspirações sem pé nem cabeça... Nada de muito promissor ou original, pra
variar. Por mais que a gente queira acreditar, a maior parte das postagens é
tão besta e vaga que é preferível continuar em dúvida.
Só que, claro (ou eu não teria começado
a escrever isto em primeiro lugar), uma delas acabou se sobressaindo: um texto
longo e pretensioso intitulado “a verdadeira magia”. A proposta já parecia
intrigante pelo nome, mas o que chamou a minha atenção foi a menção a Gabrielle Madison; apesar de eu não ser um fã
inveterado, o meu pai tinha vários dos livros dela (até é possível que tenham
sido eles que despertaram em mim o gosto pelo oculto), e acho que eu posso
dizer que entendo alguma coisa a respeito. Depois de decidir ir
dormir assim que terminasse, então, eu fechei as outras abas e fui ler.
De cara deu pra ver que aquilo tinha saído
da cabeça de alguém com uma paixão profunda (quase uma obsessão) pela obra da escritora;
o estilo era aquela boa e velha salada pós-moderna de viagem surreal e jargão
técnico, como o da própria. Se não fosse pelas referências a teosofia e
Lovecraft, eu iria até pensar que era um caso de psicografia. Enfim, o cerne da
coisa era uma reinterpretação de Pieces
of Reality, partindo do razoável pressuposto de que o “mundo total” existe
só dentro dos nossos cérebros (o autor nem tentou explicar como eles seriam conectados, mas eu imagino que isso não seja tão importante); uma espécie de
solipsismo compartilhado, por mais contraditório que isso seja. Daí que os
nossos “bugs mentais” não só afetariam a nossa própria percepção, mas em
determinados casos a dos outros também: a “verdadeira magia” do título seria o
domínio das “chaves” responsáveis por cada efeito, que (como nas falhas na
lógica de um programa) na prática pareceriam completamente desconexos.
A conclusão que arrematou a teoria foi
que todos os sistemas de magia e mistérios da História seriam como os “cultos à
carga” melanésios: todos nascidos e esquematizados na tentativa dos nossos
ancestrais de imitar os rituais reais (imitar de quem foi outra questão que ficou no ar; provavelmente
astronautas alienígenas, como de costume), que eles simplesmente não conseguiam
decifrar. Ou seja, tudo aquilo em que noventa por cento dos frequentadores do
fórum acreditava seria bobagem pura.
Não demorou pra polêmica começar.
Primeiro, vários seguidores da pensadora original (que por sinal eu nem
sabia que existiam, que dirá que eram tantos) resolveram se
manifestar: aquele “revisionismo” aparentemente só “manchava” uma hipótese de “correção
científica perfeita” (palavras deles, é óbvio). O OP então replicou, e
foi acompanhado por alguns recém-convertidos, que o ensaio dele era
uma “progressão natural” das ideias da Madison; segundo ele, além de fazer
ainda mais sentido, a nova tese esclarecia
por que milênios de tradição esotérica não conseguiram nunca provar “a
existência ou a efetividade dos seus princípios”. Esse último ponto atraiu pra
briga também uma meia dúzia de místicos mais tradicionais, que retrucaram
que a magia existe, sim e
só não “funciona” pra quem não acredita/não é iluminado o suficiente. E, é
claro, os trolls se misturaram a todas as facções, dando bomba só pra bagunçar
a discussão.
Eu observei o debate por uns bons
minutos, por várias divagações e digressões e insultos gratuitos; não sei se o
que me prendeu foi a intensidade da conversa ou se no fundo eu queria acreditar
que um dos lados tava certo. Talvez fosse tédio, mesmo. Pra resumir a fábula,
eventualmente eu me convenci de que ninguém ali pretendia (ou tinha como, quem sabe, né?) apresentar evidências ou rebater premissas; só o que aconteceu foi que
eu gastei meu precioso tempo entre argumentos de autoridade, numa disputa de
egos sem sentido nenhum.
Logicamente, eu decidi naquela mesma
hora dar um tempo com as pesquisas sobrenaturais; fechei o navegador e, assim
que eu terminar de escrever este texto, vou fazer de conta que nunca ouvi falar
dessa história.
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