Weltanschauung

1 – Crônica – Sob a Soleira da Porta

Eu costumava ter um lugar dentro da minha cabeça; talvez ainda o tenha, só não sei mais como alcançá-lo. Acho que nunca soube, na verdade. Simplesmente às vezes o encontrava, vagamente, repentinamente, sem qualquer motivo; como se observasse da praia a sombra de uma cidade submersa em águas turvas. Que poético. É sintomático: eu não tenho a pretensão de traduzir em palavras o todo de sensações de uma experiência fundamentalmente subjetiva; e, àqueles que buscam na vida precisão, coerência e rigor científico, eu sugiro o suicídio. Ou a leitura de um texto sobre física teórica, o que doer menos.
Era como uma lembrança, ou a lembrança de uma lembrança; a nítida impressão da iminência de uma recordação, um pensamento ou um sentimento. Mas essa impressão nunca se concretizava; nunca passava de um lapso fugaz, um gosto ou cheiro de porvir, de espera, que logo me deixava. Acho que essa era a sensação predominante da coisa toda: a expectativa. Uma esperança persistentemente indefinida, indefinível e interminável; e eu sentia sempre como se, na tentativa de contemplar o que quer que fosse, só conseguisse ficar parada, indecisa, à beira do mar. O meu lugar. 
Eu costumava ter um sonho besta, lá pelos meus cinco, seis anos; desses recorrentes, quando a gente já sabe o que vai acontecer e mesmo assim não consegue evitar. Eu me via correndo por um campo íngreme e acinzentado, como que fugindo, com a grama alta roçando no meu corpo, e ia me sentindo sufocada conforme subia; e, lá em cima, no cume da colina, eu enxergava uma porta. Sem paredes em volta, só o batente, só o contorno da passagem. A fronteira do desconhecido, os portões do Tártaro, a porta do sol; nessa época eu não tinha nem idéia do que semiótica poderia ser. Só via uma porta. Logicamente, eu tentava atravessá-la; e logicamente, também, ela batia na minha cara e eu me acordava de sobressalto.
Pensar sobre essas coisas sempre me deu a sensação de ter vivido minha existência inteira num torpor, numa monotonia incurável; como se eu estivesse presa sempre no processo de fazer ou experimentar qualquer coisa, sem nunca realmente terminar e não lembrar mais onde comecei. É engraçado, mas isso às vezes me conforta, às vezes me assusta: perseguir o horizonte simplesmente por saber que ele não pode ser alcançado. Inspirador e angustiante. É assim comigo mesma: por mais que eu tente me achar debaixo de todas as minhas “camadas”, por mais que eu me desconstrua, me cave carne adentro, eu nunca encontro um “lado de dentro”. Só mais camadas. Mais e mais camadas.
Uma vez na vida, apesar do medo, apesar do apego instintivo à mesmice, eu queria encontrar uma divisão inevitável, uma transição nítida no meu caminho; que eu chorasse, que eu me despedaçasse por tudo que perdi, não importaria. Pelo menos eu poderia dizer, uma vez na vida, que atravessei a porta.

2 – Poema – Claramente Intoxicada

E mesmo que seu corpo esteja tossindo de suor
Você tem um coração forte que pulsa
O gancho está aberto, os cavalos fogem pra longe
Por que eu não me tornei mais bonita e sábia?

Como uma pipa no céu
Passe um momento sem amanhã
Chove lá fora


Sobre a autora

Márcia Lindholm nasceu no Rio de Janeiro em 13 de agosto de 1990. Filha de diplomatas, teve a infância dividida em vários capítulos difusos conforme sua família se mudava de casa em casa, sem tempo ou oportunidade de se apegar a nada. Tendo ainda muito cedo sido confrontada com os medos e a melancolia das megalópoles, viu-se repetidas vezes envolvida em grandes coisas sem jamais, entretanto, sentir-se parte de coisa alguma. Ainda adolescente, começou a escrever crônicas inspiradas em pequenas recordações íntimas em seu blog, A Casa Deserta; daí até a publicação do livro homônimo, uma coletânea de seus melhores textos, foi um pulo.
Inquisitiva, por vezes inquietante, dotada de um olhar que se move por estranhos e instigantes ângulos; e, infelizmente para si própria, inteiramente imaginária: o parágrafo anterior se trata de um breve exercício de ficção, e os textos do início da postagem foram escritos por pessoas diferentes.

Um ou Dois Pensamentos sobre Ciência Política

Era uma vez um reino muito distante no tempo e no espaço, cujos habitantes todos possuíam um grande número de pequenas bolinhas sortidas. Ninguém sabe por que isso acontecia ou que finalidade os objetos poderiam ter; mas as bolinhas eram coloridas em vários tons bonitos, as pessoas as adoravam e ninguém se preocupava em questionar nada. Cada um as usava de acordo com sua própria vontade, sem pudor ou cuidado, e todos eram muito felizes.
Um dia, entretanto, um dos locais resolveu que seus compatriotas estavam se divertindo da maneira errada. “Não pode ser que cada um use suas bolinhas do jeito que bem entender”, pensou ele, “porque assim só haverá caos”. Ele concluiu que havia uma ordem correta e perfeita para se organizar e utilizar os artefatos, a qual, coincidentemente, era a mesma que ele próprio sempre empregara; e então saiu pelo reino a pregar sua idéia.
Por motivos desconhecidos, a imensa maioria do povo decidiu acatar suas decisões: foi então escrito o Grande Livro das Leis de Organização Esférica e, no intuito de propagar e legitimar sua mensagem, estabeleceu-se um Colégio de Mestres incumbido exclusivamente de estudá-lo. Os sábios tidos em mais alta conta eram aqueles capazes de memorizar todas as regras; esses eram considerados Autoridades, e consultados sempre que havia alguma disputa relacionada ao Livro.
Logo os “hereges”, aqueles que continuavam a brincar com suas bolinhas sem respeito a qualquer tipo de organização, passaram a ser perseguidos. Tentar argumentar era inútil: os especialistas na legislação esférica se haviam tornado especialistas, em primeiro lugar, exatamente por seu domínio sobre as leis ancestrais; qualquer mudança nestas, portanto, era evento raro. Mais freqüentemente eram concebidas leis secundárias, dedicadas unicamente a reforçar o cumprimento da ordem oficial: essas geralmente se referiam a medidas sócio-educativas de prevenção à “rebeldia lúdica” e à formalização das penas aplicadas aos rebeldes.
Com o tempo, o abismo cultural entre o conservadorismo dos Mestres e a fluidez do uso popular apenas se aprofundou, e a convivência entre os dois grupos se tornou impossível. Foi somente após a longa e sangrenta Revolta dos Cubos que as bolinhas foram terminantemente abolidas: outras formas geométricas, mais variadas e democráticas, foram então distribuídas pelo reino, para que o povo pudesse voltar a se divertir em paz.
Agora, é evidente, e certamente o leitor concordará, que a maior liberdade de escolha passou a implicar maiores riscos à população usuária de tais serviços; dessa forma, fez-se necessária a implantação de algumas linhas-guia para a utilização dos novos objetos: apenas medidas gerais, cautelares, calcadas nas normas do bom senso. Tudo para que se garantissem as liberdades individuais sem desrespeitar os direitos do todo.

Aut Tace aut Loquere Meliora Silentio

Este mês eu não tenho nada pra escrever; ou não tinha. Primeiro paradoxo da manhã (são 6h enquanto digito estas palavras, estas aqui dentro do parêntese; não sei quando vou terminar), a inspiração pra isto veio justamente do fato de eu não ter inspiração. Isso já gera uma dúvida quanto à classificação do texto: antes de ser escrito, poderia talvez ser um ensaio; depois de escrito, somente uma crônica de ficção. Eu neste momento me encontro exatamente no meio das duas possibilidades; o leitor, tendo agora já quase terminado um parágrafo, que o decida.
O tema, pelo qual passei dias procurando, me veio da forma mais absurda e poética (uma redundância?) de todas: por acaso. Lendo um conto de Lovecraft, achei uma menção ao pintor barroco Salvator Rosa, que não conhecia; e, por simples curiosidade despretensiosa, resolvi pesquisar sobre o sujeito, e acabei encontrando a frase que escolhi como título. “Ou cala ou fala melhor que o silêncio” é a tradução mais literal possível; um resultado menos oblíquo seria obtido com “só fale se o que tiveres para dizer for melhor que o silêncio”. De um jeito ou de outro, o aforismo mantém uma consonância entre escritor e escrito: a “falta de conteúdo” compõe o próprio conteúdo da obra, dialogando num ciclo metalinguístico infinito conforme esta vai sendo construída (ou descoberta). Suspensão de descrença às favas, o leitor é confrontado com um texto que se reconhece como texto e serve de exemplo a seu próprio argumento, o que talvez mude sua perspectiva e o faça refletir sobre a própria natureza da literatura, quiçá de toda forma de comunicação humana.
Claro que não é a solução perfeita. Tentar justificar uma auto-contradição, servindo de advogado a ambos os lados, pode soar como um disparate (ou uma desculpa anêmica e cara de pau pra falta de ideias). Não tenho respostas a essas acusações; confesso que neste momento (são 10h45min agora; nunca escrevo nada de uma “sentada” só) eu não ainda não sei exatamente como chegar ao fim maroto que planejei de início. Pode ser que eu mude de ideia até lá.
E, realmente, eu cheguei a cogitar simplesmente pôr o título lá e deixar o texto em branco. Genial, n'est-ce pas? Mas talvez aí a reação emocional do leitor diante da minha preguiça o cegasse pra quaisquer ponderações que pudessem emanar das minhas, digamos, não-linhas. Talvez eu devesse ter esperado mais um dia ou dois e procurado um tema melhor; talvez um novo surto randômico de inspiração se apossasse de mim dez minutos antes da meia-noite do dia 30. Ou talvez, em verdade, tivesse sido melhor pular este mês; fazer como sugeriu o artista napolitano, como eu mesmo comentei, como indica o bom senso (principalmente o de quem trabalha com palavras): ficar quieto, se eu não tinha nada melhor pra dizer.
Mas acho que agora é meio tarde pra isso, né?