Era uma vez
um reino muito distante no tempo e no espaço, cujos habitantes todos possuíam
um grande número de pequenas bolinhas sortidas. Ninguém sabe por que isso
acontecia ou que finalidade os objetos poderiam ter; mas as bolinhas eram
coloridas em vários tons bonitos, as pessoas as adoravam e ninguém se
preocupava em questionar nada. Cada um as usava de acordo com sua própria
vontade, sem pudor ou cuidado, e todos eram muito felizes.
Um dia,
entretanto, um dos locais resolveu que seus compatriotas estavam se divertindo
da maneira errada. “Não pode ser que cada um use suas bolinhas do jeito que bem
entender”, pensou ele, “porque assim só haverá caos”. Ele concluiu que havia
uma ordem correta e perfeita para se organizar e utilizar os artefatos, a qual,
coincidentemente, era a mesma que ele próprio sempre empregara; e então saiu
pelo reino a pregar sua idéia.
Por motivos
desconhecidos, a imensa maioria do povo decidiu acatar suas decisões: foi então
escrito o Grande Livro das Leis de Organização Esférica e, no intuito de
propagar e legitimar sua mensagem, estabeleceu-se um Colégio de Mestres
incumbido exclusivamente de estudá-lo. Os sábios tidos em mais alta conta eram
aqueles capazes de memorizar todas as regras; esses eram considerados
Autoridades, e consultados sempre que havia alguma disputa relacionada ao
Livro.
Logo os
“hereges”, aqueles que continuavam a brincar com suas bolinhas sem respeito a
qualquer tipo de organização, passaram a ser perseguidos. Tentar argumentar era
inútil: os especialistas na legislação esférica se haviam tornado
especialistas, em primeiro lugar, exatamente por seu domínio sobre as leis
ancestrais; qualquer mudança nestas, portanto, era evento raro. Mais
freqüentemente eram concebidas leis secundárias, dedicadas unicamente a
reforçar o cumprimento da ordem oficial: essas geralmente se referiam a medidas
sócio-educativas de prevenção à “rebeldia lúdica” e à formalização das penas
aplicadas aos rebeldes.
Com o tempo,
o abismo cultural entre o conservadorismo dos Mestres e a fluidez do uso
popular apenas se aprofundou, e a convivência entre os dois grupos se tornou
impossível. Foi somente após a longa e sangrenta Revolta dos Cubos que as
bolinhas foram terminantemente abolidas: outras formas geométricas, mais
variadas e democráticas, foram então distribuídas pelo reino, para que o povo
pudesse voltar a se divertir em paz.
Agora, é evidente,
e certamente o leitor concordará, que a maior liberdade de escolha passou a
implicar maiores riscos à população usuária de tais serviços; dessa forma,
fez-se necessária a implantação de algumas linhas-guia para a utilização dos
novos objetos: apenas medidas gerais, cautelares, calcadas nas normas do bom
senso. Tudo para que se garantissem as liberdades individuais sem desrespeitar
os direitos do todo.
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