"Era da Informação", uma Tragicomédia em um Ato

Interior de uma fábrica.
Duas esteiras cruzam uma seção, incessantemente trazendo uns pedaços amorfos de alguma matéria semi-derretida. Dois operários, cada qual posicionado atrás de uma esteira, se ocupam de manipular alavancas; a seu comando, as esteiras param, prensas descem sobre as substâncias para moldá-las na forma de hexágonos achatados, e então seguem para outra seção.
Os trabalhadores conversam entre si, sem parar de exercer a função.
TRABALHADOR #1:
Você viu que o primeiro-ministro da China tá no Brasil?
TRABALHADOR #2:
Vi. Eles querem construir fábricas aqui, né?
TRABALHADOR #1:
Parece. Mas vem cá, a China não é comunista?
TRABALHADOR #2:
(dando de ombros) É. Ou era.
Pausa. A esteira segue se movendo.
TRABALHADOR #2:
Mas e a cocaína na Coca-Cola?
TRABALHADOR #1:
                Oi?
TRABALHADOR #2:
Logo que surgiu a Coca-Cola, eles colocavam cocaína na fórmula.
TRABALHADOR #1:
Mas eles não usavam cocaína como remédio pra garganta?
TRABALHADOR #2:
Sim, cocaína, ácido, tudo era remédio.
TRABALHADOR #1:
(rindo) Deve ser por isso que tinha tanto manicômio naquelas épocas.
TRABALHADOR #2:
Deve ser.
Pausa. A esteira segue se movendo.
TRABALHADOR #1:
(efusivo) Mas o Goethe escrevia de pé!
TRABALHADOR #2:
(imitando o tom do outro) O Hemingway também!
TRABALHADOR #1:
Mas isso era porque ele tinha um problema numa perna, não era?
TRABALHADOR #2:
Sim. E o Byron tinha um urso de estimação.
TRABALHADOR #1:
Sério?
TRABALHADOR #2:
Sério.
Pausa. A esteira segue se movendo.
TRABALHADOR #1:
(observando o movimento da prensa) Quantas dessas coisinhas será que falta por hoje?
TRABALHADOR #2:
(um tanto surpreso) Sei lá, nunca contei.
TRABALHADOR #1:
Você vai pegar o ônibus das dez?
TRABALHADOR #2:
Não sei se eu vou pra casa hoje.
A esteira segue se movendo.

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