Divindade sob Medida

E o homem decidiu abdicar de seu já bem sedimentado (e a muito custo adquirido) ateísmo para novamente abraçar um dogma: convencera-se de que, diante do incognoscível, a única postura realmente lógica é a crença cega e irrestrita; e, se a verdade absoluta não pode ser conhecida, qualquer ceticismo é fútil, apenas um apego patético e orgulhoso à estatística.
Entretanto, ter plena consciência desse pequeno detalhe do âmago de qualquer fé (ou, em verdade, da própria noção de fé) lhe permitiu conceber a divindade mais perfeitamente adequada possível: um god of the gaps transposto, mutatis mutandis, à subjetividade pós-moderna; desconstruído a sua existência mínima, condenado a preencher cada volúvel e covarde lacuna da consciência de sua criatura e a se afirmar apenas pelo próprio silêncio.
Esse homem, embalado vida afora por sua meticulosamente calculada ignorância, talvez seja o ser mais feliz deste mundo.

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