Dia desses, te vi na sacada
Sozinha
Sem querer nem imaginar nada
Que eu tinha
Engoli a tua indiferença
Porque a tua doença
Eu sei que é igual à minha
Eu só queria te pegar nos braços
Um dia
Te levar pra viver de cansaços
E euforia
Descoser todos os teus enredos
Beber teus segredos
E te deixar vazia
Mas a coisa lá fora é um horror
Como um grito encharcado de dor
Que te chama e te ama e te odeia
E te deixa cheia
De complicações
E os porões entre as tuas costelas
Se abrem como se fossem janelas
E daí todo céu, todo mar
É livre pra entrar
Em ti
Vem viver comigo
Vem cá pro teu lugar
E eu prometo, o mundo vai girar
Só em torno do teu umbigo
Traz as tuas incertezas
Que aí já não é mais seguro
Aqui dentro eu construí um muro
E dei novos nomes pra mesas
E gavetas e espelhos
Pro nosso mundo em miniatura
Onde toda e qualquer criatura
É um pedaço dos nossos joelhos
Onde a gente pode descansar
Deitar no chão e deixar
O sol evaporar nossos medos
Os ratos roerem nossos dedos
E a nossa alma sumir
Mas a coisa lá fora é uma sina
Uma jaula de luz e neblina
Que te prende, te acende, te come
E te deixa com fome
De outros ares
E os pomares nas tuas entranhas
Se embebedam de canções estranhas
E tudo de mel e de pó
Vira uma coisa só
Por ti
Vem, foge pra cá
Onde tudo é bem definido
E do que tiveres esquecido
Eu sempre posso te lembrar
Das distâncias por todos os lados
Dos espaços por entre os móveis
E entre todas as coisas tangíveis
Pra andares de olhos fechados
Sem luz, sem som, sem lembranças
Revivendo a mesma semana
Numa espiral inumana
Sem preocupações, sem mudanças
Onde a nossa carne, unida
Sela toda e qualquer saída
E nossos sonhos, nossos pesadelos
Os dentes e as unhas e os pelos
Se desconstroem em nada
Dia desses, te vi na sacada
Sozinha
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