Renata nunca
vira o mar. Apesar de viver a poucos quilômetros do litoral, fazia questão
de mantê-lo apenas como um ponto salgado e infinito em algum lugar de
sua mente; um lugar preeminente, e ainda assim distante, de sua
consciência. Já não saberia dizer se isso havia ocorrido como uma
coincidência, tendo assumido importância apenas ao ser percebida, ou
como uma decisão intencional, talvez conectada a sua paixão de
adolescência à obra tolkieniana; o certo é que agora ainda não tinha planos de
ir à praia, e em verdade evitava todas as chances que se lhe surgissem.
Esperava por uma “ocasião especial” para viver aquela experiência, e a
ideia só ia se tornando mais grandiosa e impalpável com o passar do tempo.
Era um
sentimento um pouco pueril, ela reconhecia. Talvez fosse essa mesmo a razão: a
jovem se havia tornado adulta de forma tumultuosa e vaga; fazia parte de uma
geração que, tendo crescido com amplo acesso a um mundo inteiro de informação,
já conhecia desde cedo as dificuldades que eventualmente enfrentaria, e não
ansiava absolutamente em envelhecer. Via o “amadurecer” como simplesmente
o conformar-se com todas as injustiças, mediocridades e desesperanças do mundo;
e assim havia se passado, de fato, consigo mesma: fora abrindo mão, mais por
desânimo e desilusão do que propriamente por falta de opções, de todos os
seus sonhos ao longo do caminho. Aquela veneração mística ao oceano era o que
lhe restara de romantismo na vida; apegava-se a ela, por singela e impensada
que fosse, com todas as forças que o cotidiano ainda lhe permitia.
Mas a tal
ocasião especial teimava em não chegar. Perdida entre os milhões de cenários
que imaginava para como poderia acontecer, Renata não se arriscava jamais a se
desfazer de sua pequena fantasia de infância. A cada oportunidade, a vontade de
tentar vinha sempre equilibrada pelo medo de que a descoberta acabasse não
sendo tão prazerosa quanto ela havia idealizado. Ou apenas de que a próxima
pudesse ser mais propícia. Ou, enfim, de que algum dia, em algum ponto
longínquo da vida, viria por algum motivo a se arrepender.
Continuava,
assim, esperando indefinidamente; esperando pelo último momento possível, o
último navio cinzento que ainda a acolhesse, quando já não houvesse escolha
senão ceder. Uma espera que, ela bem sabia (ainda que não fosse jamais admitir),
poderia durar para sempre.
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