Uma
questãozinha a respeito do repertório retórico popular que vem me incomodando
há algum tempo:
Todo mundo
conhece a falácia do espantalho, certo? Aquela coisa de se colocar contra um
argumento que nunca foi dito (ou pelo menos não da forma exposta), manjam?
Exemplo: na virada do século XX, os eugenistas costumavam usar uma
interpretação (bastante equivocada, diga-se de passagem) do darwinismo pra
justificar seus preconceitos; desde então, críticos tendem a atacar a
teoria da evolução como se ela fosse inerentemente racista. Esse ataque é
falacioso porque, além de factualmente errado, ele se “desvia” do ponto
relevante (que no caso seria a validade das ideias do Darwin).
Hoje em dia,
essa é uma tática bem disseminada nos debates online: cria-se falsos
rumores sobre alguém, todos os “inimigos” do indivíduo em questão os
reproduzem, e logo tem um exército dedicado a refutar uma posição
completamente inexistente. A internet sendo a internet, claro. O que
me intriga em relação a isso, na verdade, é a motivação de quem inicia essas discussões. Quer dizer, claro, eu
sei, a intenção é sempre atingir a reputação de uma pessoa; mas por quê?
Porque não se gosta dela, evidentemente. E por que não se gosta dela?
Se parece um
raciocínio circular, é porque é mesmo: nada do que o “alvo” realmente disse ou fez, que supostamente
seria a razão da raiva a ele direcionada, é ao menos mencionado;
ou seja, a prática é execrável não só do ponto de vista ético, mas também do
lógico: por que “não gostar” de (ou, enfim, desenvolver qualquer tipo de
sentimento por) algo que se sabe que
é falso?
No fim das
contas, a questão parece ser um pouquinho mais sutil: será que o problema é o
fato de nós não conseguirmos refutar o que odiamos, ou de odiarmos o que não
conseguimos refutar?
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