Dorme sem sangue e sem dor
Depois de escorrer das janelas
Latejando pelas vielas
Descansa nos subsolos
Aninhada entre os tijolos
Onde talvez te sintas segura
Eu te procuro nas rachaduras
Nos cantos sem sombra e sem luz
Aonde minha sede conduz
Nos despertares repentinos:
Tortas catedrais sem sinos
Esqueletos de carne e cimento
Torres balançando ao vento
Em esquinas de sonhos vadios
A cidade és tu nos meus olhos vazios
O câncer morno que me bate à porta
Que enquanto mata, conforta
Corta e já lambe as feridas
Suprindo de sobrevidas
Minhas manhãs sem sono nem cura
Eu te procuro nas fechaduras
Do lado de lá dos abismos
Nas cismas de proselitismos
E no cair de cada eterno muro
Minhas mãos ainda teimam, no escuro
Em esculpir no ar tua imagem viva
E eu levo sempre na minha saliva
O gosto da pele dos teus quadris
A cidade és tu nos meus olhos febris
Que palmo a palmo vão tateando
Palmo a palmo vão te devorando
Por entre bocas entreabertas
Da tua larga alma deserta
Sem medo nem chão nem pudor
*
Dorme sem sangue e sem dor
Depois de escorrer das janelas
Latejando pelas vielas
Descansa nos subsolos
Aninhada entre os tijolos
Onde talvez te sintas segura
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