Outro dia, vagando pelos confins menos iluminados da internet, eu tomei conhecimento de uma prática japonesa interessantíssima chamada nyotaimori, que consiste basicamente em se servir sushi sobre o corpo de uma mulher nua. Ok, a noção pode ser um pouquinho difícil de digerir pro nosso paladar ocidental, então eu vou repetir de forma mais delicada: no Japão, existem pessoas que se fazem de bandeja pra outras; tomam um banhinho, deitam sobre uma mesa, têm então a comida disposta sobre o corpo e daí esperam por horas, sem se mover, enquanto os clientes (?) fazem sua refeição . É uma coisa, quer dizer, tem até um nome pra isso (e eu acredito que a expressão “body sushi”, com todo o pragmatismo plástico do inglês, não faça muito jus à ideia).
Não que eu esteja em posição de julgar ninguém; nem é minha intenção, e perdão se eu soei muito puritano. O que me chamou a atenção ao pesquisar o assunto, na verdade, foi um detalhezinho que eu percebi no artigo da wikipedia: o nyotaimori é categorizado concomitantemente como fetiche sexual e forma de arte; e, se isso não tem em si nada de essencialmente errado (nenhuma criança lê meu blog, né?), eu não pude evitar parar por um momento pra refletir sobre as duas categorias.
Arte e sexo (e moda e culinária e turismo e trabalho e…) têm passado por um longo e intenso processo de redefinição (ou des-definição, como queiram) faz pelo menos um meio século, isso é fato. Tabus são quebrados diariamente, talvez só pelo prazer de quebrá-los; como já é notório, é difícil estabelecer com certeza o que é o quê nesta nossa civilização pós-tudo. Acaba que qualquer coisa pode ser considerada performance artística, qualquer coisa pode ser a tara de alguém; aliás, com sete bilhões de nós por aí, acho que é seguro dizer que qualquer coisa vai ser considerada uma performance artística e uma tara por alguém em algum momento (quiçá pela mesma pessoa). É engraçado, mas se a gente tentasse estabelecer limites objetivos mínimos pra definir arte e sexo, poderia muito bem dizer que são literalmente a mesma coisa: formas de usar o corpo que transgridem normas de comportamento e não possuem uso prático (em termos de convívio em comunidade) direto. A única diferença é extremamente subjetiva: os sentimentos e intenções dos envolvidos. E é exatamente aí que eu quero chegar.
Qualquer criatura neste mundo (não-humanas inclusas) tem pelo menos alguma noção do que a, digamos, estimula, ainda que subconsciente; quer dizer, ainda que não admita a si mesma. Portanto, quando um homem vai a uma prostituta e pede pra só vê-la tirando a roupa, ou pra ser chicoteado por ela, ou pra que ela coma paçoca e lhe jogue as migalhas na cara (só um exemplo, gente), ele tá fazendo sexo; ela tá só cumprindo mais um dia de labuta, surreal e muito possivelmente nem um pouco gratificante. Questões sociais pertinentes à parte, o caso é que ambos se permitem definir a situação a partir de sua própria perspectiva; e nós, analisando o caso de fora, conseguimos tranquilamente compreender ambas. Agora, pensemos na arte: o mesmíssimo cenário (a nudez, as chicotadas, a paçoca) poderia muito bem ser visto como um espetáculo, desde que nos fosse apresentado como tal; ninguém atribui o rótulo de “arte” a nada sem uma sugestão prévia de um “artista”, e os critérios que utilizamos pra atribuir ou não esse rótulo (isso sem nem entrar no mérito do significado) são todos externos a nós. Claro que tem uma estrutura profunda e bem lucrativa em torno desse processo (até porque o sujeito precisa ser legitimado como artista por alguma “autoridade” antes de se tornar uma autoridade ele próprio, num ciclo vicioso fechado), que aqui tá muito simplificada; mas, de um ponto de vista individual, a definição da arte é realmente feita de forma passiva. Numa analogia de volta ao sexo, é como se um cara aleatório chegasse pra nós com um sashimi pendurado na jeba e a reação socialmente aceita fosse ficar excitado sem discutir.
De repente é só mais um tabu a ser quebrado. Longe de mim querer reviver o Freud, mas talvez o impulso criativo seja mesmo libidinoso na origem. Quem sabe ele próprio não tenha sentido um certo tesão em escrever o que escreveu, na época coisas tão escandalosas? Ninguém tem hoje como saber. A pretensa “sacralidade” das diversas formas de expressão humana é o que faz com que sejam regulamentadas, hierarquizadas; ainda que simule em detalhes gráficos o coito propriamente dito, a arte mantém a aura de “arte”: distante, self-fulfilling, “oficial”. Impenetrável, com o perdão do trocadilho. A expressão sexual, em comparação, só se tornou livre (ignorando-se, é claro, os eventuais Bolsonaros da vida) a partir do momento em que as pessoas pararam de pensar em como o sexo “deveria” ser feito e passaram a simplesmente fazer: assim, na prática, sem pretensão, tomaram pra si o direito de estabelecer a sua definição pessoal de sexualidade. Talvez falte na arte, na nossa acepção mesmo do que é arte, um contato mais íntimo entre os “praticantes”: uma relação menos de reverência e mais de cumplicidade, de troca mútua; de promiscuidade, até.
Ou seja, um pouquinho mais de sacanagem. Obrigado, boa noite, não esqueçam da camisinha.
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