Paranoia a Laser

Já faz um tempo que eu venho cultivando na cabeça um conto aqui pro blog, estocando referências, me esforçando pra construir jogos de palavras que ao menos parecessem ter algum significado profundo, enfim. Mas, é claro, é inútil. Pelo próprio caráter da ideia, só uns poucos leitores poderiam ver nela algo de interessante; os restantes ficariam no máximo coçando a cabeça em dúvida, no mínimo desistiriam no segundo parágrafo. Não é o meu estilo, por mais que eu goste do tema. 
O tema: a natureza da realidade, e suas respectivas imprecisões. Digamos que, por exemplo, eu sugerisse que existe uma conspiração gigantesca que mantém a vasta maioria da população num mundo artificial (por algum motivo), e que tudo aquilo que a gente vê como “real” é na verdade uma ilusão super elaborada. Matrix, alguém? Por clichê que seja, vamos começar por aí. 
Só que sem “pílula vermelha, pílula azul”; a brincadeira é muito mais difusa que isso.  A peça se desenrola quase que perfeitamente. De vez em quando, mas muito de quando em vez, acontece alguma coisa, algum deslize, e bate aquela sensação vaga e gelada de “puta que pariu”. Mas é tudo tão sutil, tão pessoal, que quase o resto todo da humanidade prefere ignorar. Tipo quando uma pessoa que a gente conhece a vida toda fala um negócio totalmente inesperado; e ainda fica com aquela cara de “eu nunca te contei isso?”. E ninguém mais acha estranho. E quem acha é esquizofrênico. 
Isso na verdade acontece o tempo todo. Uma foto que a gente não se lembra de ter tirado, um livro na estante que ninguém comprou. Quer dizer, quem é vai decorar todas as fotos e todos os livros que tem? E mesmo que decore, esquecer ou lembrar errado (ou mesmo inventar completamente uma memória falsa) é comum; pelo menos é o que dizem os neurologistas. Tem sempre uma autoridade pra explicar tudo aquilo que não deveria precisar de explicação. Faz tanto sentido que só pode ser mentira, certo? 
Mas, pensando bem, por que eu iria me dar o trabalho de escrever um texto comentando isso tudo? Por que eu iria querer que os meus leitores desconfiassem da própria sanidade? Tem alguma mensagem escondida aqui? Mas se a gente aceitar que a realidade não é real, qual a referência pra se saber o que é real? Um sonho dentro do outro: eventualmente a gente não tem certeza se acordou mesmo. Se alguma vez na vida acordou.

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Ou seja, tipo Ubik dissecado aos seus elementos rigorosamente essenciais; eu poderia até rotular como uma desconstrução do gênero, se eu tivesse cara de pau suficiente pra isso (porque o terror existencial e o pós-modernismo andam sempre de mãos dadas). O caso é que seria como um truque barato; quase como socar garganta abaixo do leitor uma reação enlatada, até a ficha cair como a punchline de uma piada ruim. Porque é uma questão de estatística, só. Não importa o quão específico eu fosse, alguém dentre todas as pessoas que viessem a ler o texto iria se identificar (ou não; mas apostar na impopularidade do meu blog me parece um pouquinho contraproducente) e realmente questionar a consistência da realidade por meio instante; as outras, caso existissem, nem isso. Ilusionismo: distrair os observadores do verdadeiro foco; uma tática digna do Ministério da Verdade de 1984
Agora, numa nota diferente mas não completamente desassociada, eu me obrigo, até por uma questão ética, a ressalvar: como escreveu Joseph Heller em Ardil 22, just because you’re paranoid doesn’t mean they aren’t after you.

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