Via,
inocente, o filete de luz entrar pela rachadura da velha parede. Não importava
que toda a sala fosse embebida em sol por incontáveis janelas e portas, aquela
nesga tímida e irregular insistia em aparecer; vinha, dançava seu
balé diário pelo chão de madeira e se punha, sonhando imponência, somente
quando a noite chegava. A menina, encantada, requeria à mãe um nome para aquele
pequeno milagre: “luz”, respondia, distraída; pois de que outra forma se
lhe poderia chamar? E, para além dos fótons das aulas de Física, essa foi a
definição mais primitiva e íntima da palavra que a menina guardou para
si.
E quando a
vida lhe inundava de tudo, procurava sempre uma fresta por onde
escoar; buscava antes não se encaixar no que quer que fosse. Como
um rio que dá em uma laguna, cavava seu próprio caminho paciente até vazar,
ainda que gota a gota, para o oceano; porque o oceano, sabia, não era mais que
uma laguna maior agarrada a um maior continente. Se a iluminação dos sábios, do
alto de suas torres de mármore, era a união com a infinitude, sua iluminação
pessoal era justamente o escape de todos os infinitos: correr incessantemente
entre dois pontos, como queria Zeno: a ilusão do movimento sendo-lhe mais
reconfortante do que a complacência estagnada do extremo onde o nada toca o tudo.
Temia, pois,
apenas a noite: quando as luzes cessavam sua ação, e a sensação de um desfecho
iminente se lhe aproximava. Uma eternidade no Paraíso ou o fim brusco e
definitivo de sua existência, ambas as possibilidades lhe eram igualmente
assustadoras. Fugia, portanto, ainda nos pensamentos sobre o travesseiro;
fugia, enquanto o sono vinha abraçá-la, em planos, palpáveis ou não, para o
amanhã.
E, enquanto
houve amanhã, teve a felicidade de acordar sempre com o primeiro fio de luz que
viesse dançar sobre seus olhos.
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