I Know the Pieces Fit

- Nós somos estranhos. - disse ela, os olhos fixos na lua através das nuvens, o torso um pouco tenso sobre os cotovelos, deitada na grama úmida.
Nós.
Eu poderia ler camadas e camadas de significado naquele rosto que tanto se esforçava pra não dizer nada (ou pra dizer sem falar, a mensagem saindo de um cérebro pra já adentrar o outro, essa harmônica telepatia com que sonham os funcionalistas); mas foi a um detalhe semântico que eu me ative. Um detalhe que sozinho me pareceu conter mais significado que o resto todo.
Nós. Porque “eu” sou automático, preguiçoso; quem realmente se atreve a mergulhar dentro de si? De repente os budistas que estão certos, e eu me desconstruindo de dentro pra fora não encontraria ninguém; mas nós somos opcionais. Nós somos a diluição intencional da fronteira entre eu e tu: se eu não existo, nós não existimos juntos. Tem algo de absurdamente reconfortante nisso; o que me vem à mente é a imagem de duas células se fundindo, algo como a formação de um zigoto ou coisa parecida. Talvez Freud explique; ou Lacan; ou Anaximandro, sei lá. Buscar uma explicação seria impossível sem acentuar a distância, a différance entre nós; sejamos estúpidos e inexplicáveis.

“Nós somos estranhos”. Eu poderia ter discordado, eu poderia ter concordado; eu poderia até ter respondido. Mas nós somos, e isso é tudo que importa.

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