Crônicas do Fim do Mundo X - Blasthrophocandra

Noite passada eu sonhei que comia uma aranha
Em um campo de TVs quebradas
E meus amigos todos estavam vivos

“Estamos aqui!”, alguém gritou
Egoísta e rudemente, e
Esperamos que eles chegassem

Mas as palavras na tela grande diziam
“Blasthrophocandra! Skranagdullasva!”
E nós ficamos parados

Ninguém gritou, ninguém chorou, ninguém
Mãos muito frias até pra respirar
Mãos muito frias até pra pensar

Nós só dançamos sobre a poeira, e
Nadamos alto na luz queimante
Mãos muito frias até pra piscar

Mas o homem no terno fino disse
“Blasthrophocandra! Kyrtasvartoror!”
Do alto da colina

E nós dormimos, um por um
Como pequenos enet em um lassentil

P.S.: forma mais reproduzida (em tradução extra-oficial) do poema que veio a ser conhecido popularmente como Blasthrophocandra ou Spider Eater; o original, um grafite descoberto em meio às ruínas de Seattle e registrado por Eric Ahn em sua fotografia vencedora do Pulitzer Dust Laughs, inclui um pequeno número de discrepâncias.  
Esta versão, entretanto, atingiu um nível de proeminência sem precedentes quase que imediatamente após ser publicada online. Durante os tumultos de 2106, grupos de jovens saíram às ruas usando camisetas que continham o verso “last night I dreamt I ate a spider” para reivindicar os direitos dos habitantes da superfície; os protestos culminaram com a inauguração do New Manhattan Memory House, que abriga trabalhos relacionados à Guerra e cujos lucros são parcialmente revertidos a ações de caridade. Dentre as muitas obras expostas, apenas uma discreta escultura, que recebeu o nome da histórica fotografia de Ahn, faz homenagem direta ao poeta: um simulacro de um muro de tijolos, trabalhado em poliestireno expandido e papelão, que porta a inscrição “DUST LAUGHS - Dedicated to the unknown author of ‘Blasthrofocandra’ [sic], may his talent and inspiration never be forgotten”.

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