In Girum Imus Nocte et Consumimur Igni

Pela milésima vez, a mulher sentou-se no velho banco, exausta, e se pôs a esperar. Milésima ou milionésima, ela nunca teria certeza. Os curiosos factoides da vida haviam sido interessantes anos atrás, décadas atrás; e sua cabeça não funcionava pra matemática (não depois de um dia todo sentada de frente pra um computador, pelo menos). Pensava agora apenas no ônibus; ou, antes, tinha a espera pela vinda deste como uma certeza instintivamente inflexível no fundo de sua alma. Pensar, pensar mesmo, não pensava nada. Queria mesmo era uma boa xícara de café.
Por que, afinal de contas, haveria de gastar seus neurônios? A calmaria da madrugada era sempre o pior momento pra se refletir sobre qualquer coisa: no escuro daquela esquina, o mundo parecia tão amplo, tão vazio, tão assustadoramente incompleto que era difícil impedir a mente de vagar por lugares bizarros, na ânsia de completá-lo; aí vinham as dúvidas, as desconfianças, os medos... E nunca havia nada nem ninguém, um mendigo ou demônio que fosse, pra lhe dizer deixa de bobagem, guria, vai lavar uma louça ou coisa do gênero. Não; era mesmo melhor não pensar. Qualquer coisa, até mesmo puxar assunto com algum estranho, seria melhor.
Entretanto, naquela noite, não havia ninguém. Ninguém. Nenhuma buzina, nenhum passo, nenhuma luz exceto a dos monótonos e monolíticos postes. O silêncio era quase ensurdecedor; mas a mulher só se apercebeu disso quando já iam vários minutos além do horário em que geralmente estava em casa, e o ônibus ainda não passara. O instante preciso, entre a olhada no relógio do celular e a total assimilação das circunstâncias ao seu redor, não durou três segundos; e a reação veio na forma de um pânico enregelado: ela nem se mexeu, mas sentiu como se suas entranhas fossem retorcidas de dentro pra fora; e tantos pensamentos díspares voaram por sua cabeça, todos ao mesmo tempo, que posteriormente ela nem se recordaria de ter pensado alguma coisa.
Quis gritar; quis chorar; quis correr. E, como em muitos outros momentos cruciais de sua vida, nada fez. Era uma espécie de complacência subconsciente, algo que ela definiria como um misto de preguiça, receio e certo pendor à submissão, que lhe mantinha inativa exatamente quando alguma ação se fazia mais necessária. Ficou parada, equilibrando-se sobre o nó frouxo que unia suas certezas mais profundas; esperava por algo, uma mensagem, um sinal qualquer que lhe garantisse a normalidade daquela situação.
E algo, de fato, aconteceu: da massa indistinta da própria escuridão, emergiu, altiva e despretensiosa, uma borboleta. De todas as coisas do universo, uma simples borboleta passou voando por aquele ponto de ônibus solitário, completamente indiferente ao olhar embasbacado que a contemplava. Dançou no ar, rodopiou, brilhou prateada ao amarelo doentio das luzes da rua; e foi pousar, sem pressa, alguns metros dali.
Dizer que o contraste brusco entre o vazio impossível daquela noite e a naturalidade de sua pequena invasora deixou a mulher perturbada seria demasiado brando: seu cérebro, em irracionais milésimos de segundo, computou aquela repentina nesga de familiaridade como a última chama de lucidez em um mundo cuja consistência lógica parecia se dissolver. Ela então sentiu que precisava da borboleta; que, se não a possuísse, não a devorasse, não a destruísse, jamais retomaria a sensação de realidade. Deu o primeiro passo, e o segundo, e já quase a sentia nas mãos... E, é evidente, o inseto alçou voo, apenas pra aterrissar um pouco mais longe.
E assim foram, noite adentro, a caçadora e sua presa; a cada vez mais rápidas, a cada vez mais imprudentes. E qual delas caçava, qual era caçada? A mulher não saberia dizer; durante a perseguição, só a perseguição importava, e só seguir em frente já era em si uma realização. Conseguira enfim não pensar, não sentir, não existir: apenas corria, e não concebia algo que não fosse correr.
Por fim, tão subitamente como começara, a busca terminou. A borboleta, talvez cansada, talvez zombeteira, decidiu pousar sobre um muro baixo e aguardar, imóvel, diretamente à frente dos olhos da mulher; esta então também parou, desconfiada. Agora lentamente ia lembrando-se de si, da vida e da noite, e de seus medos. Chegou a questionar, por um átimo, a irracionalidade de seus atos; mas a expectativa era o que mais lhe incomodava: era esse o fim? Deveria reclamar aquela criatura como sua, como um troféu às suas inseguranças, e lhe descobrir os segredos? Ou a razão de ser do maldito bicho seria meramente envolver incautos seres noturnos numa investigação infrutífera? Qual era o significado daquilo tudo?
De repente, interrompendo o caos em sua mente, a mulher testemunhou o desenrolar de um acontecimento inteiramente desconexo de suas divagações: um raio de sol perfurou o céu, fulminante, e atravessou a borboleta como uma seta. Por um momento, aquele fato pareceu ser um incidente isolado, um mistério, sem motivo ou explicação imediatos; mas logo a situação se fez evidente, tanto quanto a realidade pode evidenciar a si mesma: a noite morria, e com ela seu pequeno milagre. É claro. O amanhecer chegou como uma onda, carregando consigo todo resquício da névoa onírica que a escuridão houvesse deixado pra trás; ou então, quem sabe, como um véu, improvisadamente erguido pra esconder dos olhos mortais quaisquer migalhas que porventura tentassem se esquivar da ilusão da luz. Uma diferença sutil.
À mulher, entretanto, esses detalhes não importavam: o raiar tangível e quente do dia em seu rosto lhe recordou de que estava atrasada pra alguma coisa, e ela achou melhor não pensar. Tudo que queria agora era uma boa xícara de café.

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