Já foi dito
que o português brasileiro, como várias outras línguas do mundo, é acometido de
um fenômeno denominado “diglossia”: ou seja, dois registros de um mesmo idioma,
às vezes não de todo mutuamente inteligíveis, coexistindo em um mesmo contexto
social. Historicamente, isso ocorre por uma diferença de prestígio entre as
variedades, uma delas sendo associada a uma casta ou classe tida como
“superior”.
Condições similares, ainda que mais amenas,
ocorrem e ocorreram em todas as linguagens naturais. O ambiente cultural não é
estático, e as gírias, pequenas inovações de cada grupo e geração, vão aos
poucos mudando o modo de falar da sociedade como um todo; e, se hoje nos
maravilhamos com os arcaísmos de um Camões (como se “arcaísmo” já não fosse
arcaico o suficiente), sem dúvida que um Virgílio ficaria horrorizado em saber
que aquilo foi no que se degenerou
seu latim. O português, como todas as línguas da Terra, se formou pela
constante e gradual mudança (“degeneração” é uma palavra tão forte...) de um
idioma primordial, talvez uma matriz universal, milênios e mais milênios atrás.
Foi somente
nos últimos séculos, no entanto, que a prescrição linguística se tornou a
refinada ferramenta de dominação que é hoje. Com o nascimento do Estado-nação,
a “identidade cultural” de cada pedaço de terra se tornou um evidente objeto
político, algo que (como já disseram do deus cristão), se não existisse,
precisaria ser criado. Assim, por exemplo, a proibição do uso de outro idioma
que não a fala parisiense nas escolas da França, no final do século XVIII, não foi
simplesmente uma humilhação gratuita aos bretões e provençais, mas uma
demonstração da autoridade da república sobre as províncias.
O que me
impressiona nisso tudo é a interação entre a norma culta da língua, “correta” e
defendida pelos paladinos do status quo,
e a coloquial, que de qualquer forma se conserva viva e fértil nas margens da
sociedade. No Brasil, essa situação se dá sobre um paradoxo: o alcance
praticamente ilimitado da mídia de massa, reprodutora (em geral) do registro
oficial, e a deficiência do sistema educacional, que dificulta a apreensão por
parte dos estudantes das “regras” de seu próprio idioma. O que existe, na
verdade, é uma triglossia: uma
terceira variedade, de certo modo um “meio termo” entre as outras duas (ainda
que por vezes distante de ambas), emerge quando um falante, em determinada situação,
tenta se utilizar de uma norma que não completamente domina. Uma variedade
surgida espontaneamente, artificialmente, e que não obstante já dá seus
primeiros passos rumo à formalização (que o digam os onipresentes “no caso” e “acintosamente”,
distribuídos ad libitum no meio de
discursos improvisados).
Engraçado imaginar
que um dia, quando o estilo deste texto já for considerado arcaico, venha essa a ser a norma tida como culta.
Ainda mais engraçado pensar que então ainda vão existir prescrivistas a
defendê-la.
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