O leitor
talvez conheça a interessante biografia de Jean Hardouin, jesuíta,
bibliotecário do Lyceé Louis-le-Grand de Paris e escritor que viveu entre o
final do século XVII e início do seguinte; àqueles não familiarizados com o
assunto, o que interessa para este texto é meramente o motivo pelo qual o
francês se tornou célebre: suas teorias sobre a História. Ora, tendo acesso, em
virtude de seu cargo, a grandes obras da literatura ocidental, naturalmente Hardouin
acabou por chegar a uma única conclusão sobre elas: eram todas falsas. Todas,
todas as inscrições, moedas, artefatos, de fato toda a História prévia, tudo
teria sido forjado por um grupo de monges do século XII, sob a supervisão de um
certo Severus Archontius. O motivo para tal fraude monstruosa seria depreciar o
Cristianismo, mediante “inserção” de elementos pagãos na vida de Jesus; a
Bíblia, segundo o escritor, teria sido concebida originalmente em Latim.
O que
pouquíssimos imaginam é que, por incrível que pareça, essa história é, em si,
falsa. O homem Jean Hardouin jamais existiu. Sua própria vida, suas obras e suas
ideias foram, elas sim, forjadas, e as evidências disso são claríssimas; em
primeiro lugar, referências sobre sua existência e detalhes de sua biografia
são extremamente escassos. Gibbon, o famoso historiador britânico, cita, em sua
colossal History of the Decline and Fall of the Roman Empire, em uma
nota de rodapé, um “padre Hardouin” que parece
ser o indivíduo em questão; só se
encontrará menção mais densa a ele em 1853, na Bibliothèque des écrivains de
la Compagnie de Jésus de Augustin
e Aloïs de Backer. Além disso, a Prolegomena ad Censuram Veterum Scriptorum,
obra em que suas teorias teriam sido expostas, existe apenas em versões mais
recentes (a edição mais antiga datando de 1766, quase cem anos depois do
suposto original). Nenhum satisfatoriamente verificado comentário de
contemporâneos subsiste, nada que indique com certeza que Jean Hardouin existiu
conforme se pensa.
Resta apenas o grande ponto de interrogação
que é o porquê de alguém, algum grupo de pessoas, se dar o trabalho de
efetivamente criar um ser humano fictício. Queriam eles, ao elaborar
tais ridículos argumentos a favor da Igreja, em verdade criticá-la? Pretendiam
simplesmente realizar um experimento filosófico que acabou por tomar proporções
imprevistas? Ou...
Ocorre-me agora que se, para acompanhar o
fluxo deste texto, o leitor se permitiu crer que documentos tidos como
históricos são na realidade falsificações, nada me garante que alguma das
afirmações aqui feitas receberá algum crédito. Não há, portanto, motivo para
que eu continue a escrever isto.
Um comentário:
yeah. i was a little lost but it was still great. blinkk
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