O estrangeiro
cobriu os olhos com a palma da mão, sozinho entre tantos olhos inquisidores e
jocosos. Sentia que mesmo o sol o observava, eternamente paciente, em sua
provação. Naquele dia decidiria, de um só e simplíssimo ato, quem de fato era.
Chegara
àquele lugar como que por acaso: abrindo caminhos por selvas fechadas,
acompanhado por um fiel tradutor e pelo onipresente calor dos trópicos,
aquele fora simplesmente o primeiro lugar que encontrara dentre todos os que poderia ter
encontrado. Apenas sua infantil curiosidade, sua bem-intencionada loucura,
permitiu que permanecesse entre aquela gente por tanto tempo; e agora ela
indefinidamente lutava contra seus valores mais básicos.
A cerimônia
de boas-vindas, ele amargamente recordaria, já deveria ter sido suficiente para
expulsá-lo de lá; foi durante os cânticos e danças dos nativos que ele
presenciou, atônito, a cena que ficaria marcada no fundo de sua mente pelo
resto de seus dias: o ritual. Nunca imaginara, mesmo após todas as suas
viagens, que seres humanos fossem capazes daquilo.
À noite,
sozinho na moradia que lhe fora fornecida, seu estômago ainda dava voltas
quando aquelas imagens voltavam para atormentá-lo. Tentava não pensar; mas
sempre lhe vinha, clara como o dia, a última cena daquele balé hediondo, quando
o próprio chefe local se aproximou e polidamente requisitou, conforme o
tradutor lhe admitiu, que participasse. Ter-se desviado, tão dignamente quanto
pôde, daquela situação insólita não era o que mais lhe incomodava: não, muito
pior eram os olhares que via jogados em si. Não conseguia evitar o enjoo quando
os olhares vinham visitar seu sono.
Agora via que
não poderia partir. O modo como os nativos passaram a interagir com ele, dia
após dia, lhe parecia tão ultrajante quanto despropositado:
frequentemente o interpelavam, alegremente, oferecendo agrados e sorrisos;
entretanto, por suas costas, o reprimiam por “seu orgulho” e se perguntavam
quando finalmente resolveria respeitá-los. Nas poucas vezes em que o
estrangeiro se permitiu inquirir seus anfitriões, perguntar-lhes sobre aquela coisa, recebia apenas expressões de
repúdio ou indiferença; os locais faziam gestos que o lembravam vagamente do
ato cristão de benzer-se com o sinal da cruz, como que num reflexo inconsciente
e automático diante de alguma blasfêmia. A sensação inquietante de ser ele o errado ali feria profundamente seu
ingênuo otimismo, sua disposição em abraçar culturas radicalmente diferentes de
sua própria, de fato suas mais primitivas noções de humanidade.
Se chegou a
haver realmente orgulho em sua atitude, se alguma vez houve qualquer intenção
de solitariamente converter todas aquelas pessoas, já agora só havia
resignação. Não foi antes que os anciãos passassem a chamá-lo imoral em frente a toda a tribo e que as
mães não mais permitissem que seus filhos dele se aproximassem que ele resolveu
apresentar ao chefe sua formal desistência. O anúncio da nova cerimônia ecoou
por todo o povoado.
E agora,
confrontado por olhares incrédulos, o estrangeiro se preparava para sua
redenção. O ritual começava, e ele, num impulso, assumia definitivamente sua
nova identidade. Sob o testemunho do sol, deu um passo a frente e foi engolido
pela euforia dos cânticos.
Um comentário:
mmhmm.. i totally agree. :P
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