Pão

O que te faz sentir inteiro?
A linha dos teus pedaços
A segurança do teu canteiro
Medida certa dos teus passos

Um rosto de uns poucos traços
Traçados sem nenhum pudor
Um alguém perdido entre os teus braços
Seja ele ou ela quem for

Se o mundo é uma noz
Tantos canais e uma só voz
Que não se cansa de gritar

Que o caminho é um só
Carne, lágrima e pó
Um anel pra todos governar

Num dedo só de uma só mão
Um sol, um deus, um pão

Pra que tanta coerência?
Tanta carência de alucinações?
Tanta eloquência exigindo independência
Ainda agarrada aos grilhões

Variações de um mesmo tema
Pronúncias de um mesmo fonema
Caducos e burocráticos

Sempre aparece um final
Uma só versão oficial
Pro gozo dos matemáticos

Estáticos doutores
Preguiçosos espectadores
Da floresta que brota ao redor

Do suor, do sangue e leite de outras mães

Jogam assim o ardor e a cor
Dos dragões aos cães
E se no fim a cura da nossa dor
For o bolor de outros pães?

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