Propósito. De
todas as “grandes obras” da humanidade, essas que enchem os livros de História
de odes hipócritas, o que me impressiona mais não são os resultados: mais cedo
ou mais tarde as pedras desmoronam, as estátuas desmancham, o mármore vira pó.
Não; o mais impactante de tudo é a força motriz da criação, a vontade e a
loucura, populares ou despóticas; as almas de muitos homens-formiga,
mente-colmeia, unidas em uma só direção. Um só objetivo. As grandes pirâmides eram
tumbas majestosas de reis considerados divinos; Stonehenge era um observatório
astronômico pra sacerdotes que idolatravam as estrelas. Propósito.
Em meados do
século XI, uma civilização desconhecida construiu uma série de cidadelas de
pedra nas savanas subsaarianas, com muros que chegavam aos onze metros de
altura, sem mesmo conhecer a argamassa; o nome do Zimbábue (país onde a maioria
dessas construções se localiza), inclusive, deriva de “dzimba-dza-mabwe”, que significa “grandes casas de pedra”. Entre as
labirínticas ruas e os monólitos esculpidos em estranhas imagens, as estruturas
que mais chamam atenção, com certeza, são as torres cônicas: paredes com 22
metros de altura e 10 de espessura, sem janelas, sem portas; o único acesso ao
interior sendo por cima. Propósito. Quem quer que fossem os responsáveis
por essas maravilhas, haviam sumido já na época em que os primeiros europeus
chegaram à região; e os habitantes locais, como relatou o historiador português
João de Barros, achavam que os zimbábues eram “obra do diabo”. E, excluindo-se
hipóteses paranormais, homens-pássaro e discos voadores, que outra explicação
pode justificar tanto empenho, tanto tempo gasto, por tanta gente?
Não sei. Trabalhar muito tempo com enigmas exatos
destrói nossa capacidade de raciocínio lógico. As pessoas sempre buscam transcendência.
Se sobra uma peça no quebra-cabeça (por simples falha humana, coisa cotidiana,
sem culpados), elas ligam pra empresa pra perguntar. Querem achar outro termo,
com o mesmo número de letras, que caiba no mesmo espaço nas palavras cruzadas;
e, se encontram, acham que desvendaram uma conspiração. Vivem num ARG, as
regras são o maldito propósito.
Já não se fala mais de um Deus pessoal,
cujos atributos só possam ser aproximadamente inferidos pela negação. Mas
sobrou no caldeirão do mundo um sentimento denso, ainda que vago; uma noção
latente de ordem e perfeição como se objetivas, derivada da mais primitiva
insegurança: um deus-máquina, sustentáculo das formas e essências, semi-personificação
da teleologia, descido do glorioso trono celeste pra governar os dados de cada
mesa de RPG.
Talvez a
grande graça (em todos os sentidos possíveis) que os antigos nos tenham deixado
seja mesmo a charada infindável: a contradição constante, a piada suprema, por
trás de cada surto de megalomania; mesmo que não fosse essa a intenção. Quem
hoje vai saber? Ficaram pros olhos honestos os reflexos patéticos de tremendos
esforços vãos: grandes ideais que acabaram por se resumir em objetos de mera
contemplação e fontes de lucro pra aproveitadores que nada têm a ver com o “propósito”
original.
Ou talvez sobre
na arte dos povos do passado um bom humor que atualmente nos falta: o
reconhecimento dos eternos fluxo e refluxo de significado, da impermanência dos
nomes. Cientes de sua própria efemeridade, artistas esquecidos teriam trabalhado
livres, sem pretensões, sol per sfogare
il core; e não é impossível que algum deles, notando as peculiaridades do
fruto de seu labor e se permitindo imaginar além de sua época e cultura, tenha,
num dia qualquer da noite dos tempos, pensado consigo mesmo:
- Cara, ia
ser muito engraçado se algum dia alguém levasse isso a sério!
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