Crônicas do Fim do Mundo VI - O Macaco Digitador


Uma coisa tão simples, e ainda assim tão complexa. Acho que nunca pensamos que o medo, logo o medo, pudesse ter alguma influência em nosso trabalho. Eu, pelo menos, nunca teria imaginado; e, se o medo que tive foi pelos outros e não por mim, isso agora não faz mais a mínima diferença.
Alguns homens, sejam os acomodados e obesos executivos de grandes multinacionais ou os pobres coitados que não têm nem o que comer, tendem a se preocupar apenas com aquilo que podem ver e tocar; outros, como eu e minha equipe, preferem se dedicar ao infinito, ao infinitamente distante, aquilo que, com a mais absoluta certeza, não poderemos nunca ver ou tocar. Esse é um assunto que sempre me fascinou; quando criança, eu costumava imaginar um livro tão longo, mas tão longo, que seria impossível lê-lo durante uma vida inteira... Acho que minha pequena mente não conseguia imaginar, na época, a angústia que resultaria dessa situação. Algo grande demais para qualquer um de nós, mesmo o mais brilhante, assimilar; derrotados por uma questão matemática básica: lendo-se no máximo tantas páginas por dia, vivendo-se no máximo outros tantos anos, ninguém, ninguém nunca conseguiria entender o livro em sua totalidade. Uma coisa tão simples.
Enfim, de qualquer forma, acredito que foi esse meu ímpeto infantil que me levou à ciência da computação, por acreditar que a capacidade de processamento de um computador eventualmente ultrapassaria a de um ser humano; que os cérebros eletrônicos nos trariam possibilidades ainda impensáveis, simplesmente porque nossos cérebros de carne não as conseguem imaginar. E o meu primeiro projeto nesse sentido foi justamente o Macaco.
O Macaco era um computador que nós desenvolvemos pra um único fim: escrever. Sim, outros desse tipo já existiram e talvez ainda existam; o próprio apelido que demos a ele advém de uma ideia antiquíssima, que alguém algum dia comentou: o fato de que um macaco sentado à frente de uma máquina de escrever, aleatoriamente batendo nas teclas, iria eventualmente, com tempo suficiente, escrever toda a obra de Shakespeare. Isso sem ter ou adquirir qualquer conhecimento relativo às questões existenciais de Hamlet ou ao amor impossível de Romeu e Julieta. Como um copista medieval cuja fonte é o infinito, o computador-macaco simplesmente escreveria sem parar até que, entre blocos e blocos de texto ininteligível, algo surgiria.
O que nós fizemos de diferente pro nosso Macaco foi utilizar um recurso que ainda é consideravelmente amplo nestes dias: a internet. Ele foi programado pra confrontar automaticamente os seus próprios textos com aqueles que encontrasse pela web, e assim, na base da comparação estatística pura e simples, refinar os algoritmos e reduzir drasticamente a quantidade de nonsense.
Por algum tempo, ficamos completamente estupefatos com o quão bem nosso projeto funcionava. A cada dia, seus escritos ficavam mais concisos, mais interessantes. E menos de um mês, ele já produzia textos longos e perfeitamente compreensíveis; muitos deles, e isso já era previsto, eram cópias de obras de autores famosos ou de bloggers anônimos, e toda vez que isso acontecia ele nos “comunicava” o ocorrido com um e-mail. Tudo ia impecavelmente bem; até que, um dia, algo absurdamente óbvio (e ainda assim inesperado) aconteceu.
Havíamos recebido, como muitas outras vezes nos últimos meses, um e-mail do Macaco nos avisando que ele havia encontrado um texto online que batia com exatidão com algo que ele escrevera: uma coisa banal, algo sobre criar galinhas ou coisa assim. Tudo normal, a mesma singela comemoração de sempre (já nos estávamos acostumando ao fato), quando um de nós percebeu um detalhe: a postagem fora feita cinco dias depois de o Macaco tê-la, por conta própria, escrito. E aí que revelação súbita nos ocorreu: dentre tudo que o Macaco escreveria, aleatoriamente agrupando palavras com um senso básico de gramática, estariam, sem dúvida, textos ainda não escritos.
Ainda que alguns entre nós tenham, naquele momento, demonstrado uma reação inicial de euforia, o sentimento geral naquela sala era de apreensão, senão de desespero. O que mais aquela máquina cega poderia descobrir? Um futuro best-seller, antes que o seu autor sequer nascesse? Notícias de todo o mundo, eleições, revoluções, guerras, anos antes dos próprios fatos acontecerem? Ou, quem sabe, as certidões de óbito de cada um de nós que trabalhamos pra criá-la, com nossos nomes, datas de nascimento, tudo numa perfeição robótica? Tudo isso era possível, posso dizer até que provável; e o pior é que nunca saberíamos com certeza o que seria real e o que seria simplesmente uma ficção incrivelmente precisa. E se um marido desconfiado lesse sobre a traição da esposa? E se um suicida visse sua própria carta de despedida? Hesitaríamos? Duvidaríamos? Juro que, do alto de todo o meu ceticismo, eu quase imaginei um macaco supremo, batendo infinitamente na máquina do destino, rindo histericamente de nossa ignorância.
Mas ficou claro pra nós, depois de um instante de reflexão, que estávamos diante de uma bifurcação importantíssima no curso de nossas carreiras e nossas vidas; uma ocasião quase religiosa. Ali, à nossa frente, manifestava-se em forma física o maior (e talvez único) mistério do universo, de onde muitos fizeram deuses e forças cósmicas: a aleatoriedade em si. O total das possibilidades deste mundo e de todos os outros. Algo profundo demais, perigoso demais, grande demais pra que nós ousássemos manusear. Por fim, nenhum de nós vacilou em considerar que o projeto deveria ser cancelado.
Forço-me, entretanto, a comentar um pormenor que é do conhecimento de poucos: os frutos desse trabalho, a grande obra do Macaco, não foram eliminados, pois isso iria contra nossos princípios e a política de nossos patrocinadores. As milhares (talvez milhões) de páginas estão todas arquivadas, em algum lugar, esperando pra serem lidas. Talvez enquanto durar o universo nenhuma delas tenha alguma utilidade; talvez só sirvam pra que um dia, quando o que restou de nosso mundo seja finalmente reduzido a cinzas, algum cientista ensandecido (e quem dirá que não serei eu mesmo?) sair gritando pelas ruas “eu sabia!”, “eu já sabia!”.
Uma coisa tão simples...

Exílio


Por de todos reinos do mundo
Cascos vomitando leis
Engrenagens se fazendo reis
Não me tocarem os dedos

Dos medos
Da terra sólida e chão
De antenas, ocultas ou não,
Para-raios de emoções difusas

Não me acertarem, confusas
As noites de estática e luz

Por dos altos penhascos nus
Testemunhas de algum senhor
Que não inspiram gastar meu suor
Em réplicas de dez centavos

Os escravos
Hipnotizados pelo neon
Convencerem-se a achar que é bom
Às marteladas costumeiras

Beber de heróis e bandeiras
Que nunca lhes deram nada

Que segue minha dor, exilada
Meus pobres sonhos escassos
Levando meu reino nos braços
Eu ando, por retas e voltas

Sufocando revoltas
Diplomata por necessidade
Das vozes na minha cidade
Clamando por revolução

E os guardas da minha razão
Quase todos já se converteram

Mas mesmo que falanges caiam
Meu reino segue sem muros
Aberto a quaisquer futuros
Que se enrosquem nos meus caminhos

Nos espinhos
Que me rasgam por dentro
E fazem orbitar no meu centro
De tantas estrelas migalhas

Espólios de tantas batalhas
Que quase transbordam, enfim

Só minha paciente vontade
E as luzes da minha cidade
Ainda me protegem do fim

Mas meu reino segue calado
E eu me mantenho, exilado
Do lado de fora de mim

Contexto Cultural


Não é difícil encontrar, de tempos em tempos, debates nos meios de comunicação acerca de rodeios, touradas e outras situações que envolvem o abuso de animais. De um lado, ativistas acusam os patrocinadores de tais eventos de maltratar criaturas indefesas por puro prazer estético; de outro, os defensores argumentam que essas atividades são sempre parte da tradição local, seja qual for o lugar, e que acabar com elas seria atentar contra os costumes e a cultura.
Não vou escrever uma apologia de nenhum dos dois pontos de vista, até porque acredito que toda moral é relativa (e, se sou contra a violência aos animais, também adoro um churrasco); mas um ponto no discurso “a favor” de touradas etc. me chama a atenção sempre que o ouço: o fato de algo ser considerado “tradicional” ou “cultural” servindo como argumento em si.
Em primeiro lugar, definir “cultura” já é complicado. Qualquer ponto do planeta tem pelo menos alguns milênios de presença humana, e mesmo antes do próprio Homo Sapiens já existiam formas de expressão que poderiam hoje ser classificadas como “culturais”. Isso não quer dizer, claro, que eu acredite em civilizações melhores ou piores umas que as outras; mas que, se dentro da saga de um mesmo local ou povo existem costumes que foram abandonados, assim como outros que foram assimilados de outras fontes (ou mesmo inventados ao longo do tempo), a definição de uma cultura “oficial” é no mínimo arbitrária.
Também me é desconhecido o porquê de, hoje em dia, uma atividade qualquer, mesmo já rotulada e apropriadamente introduzida no rol de tradições locais, não poder ser abandonada mesmo existindo argumentos pra isso. Falar em cultura atualmente é como era falar de religião um tempo atrás: mencionar que algo tava na Bíblia (aqui no nosso lado do mundo, imperativo dizer; em relação a outros lugares, considerar livro sacro equivalente) já dizia o suficiente. Hoje criticar o legado dos deuses já é praxe, mas o mesmo não se aplica ao dos homens (mesmo que em muitos casos ambos tenham se misturado no liquidificador da História a ponto se tornarem indiscerníveis): a cultura se tornou o relicário do Sagrado nas sociedades laicas, e se pôr contra alguma manifestação cultural é uma heresia tão grande quanto era ser contra o domínio da igreja na Idade Média europeia.
Enfim, reitero que não foi minha intenção criticar qualquer costume de qualquer lugar ou período: sempre parece mais fácil julgar os vizinhos, e às vezes nos esquecemos de olhar pro nosso próprio quintal. Cabe às pessoas de mente lúcida debater a melhor solução pra essas questões ainda em baila, sem preconceitos. Em relação aos outros como a si mesmas.