Uma coisa tão
simples, e ainda assim tão complexa. Acho que nunca pensamos que o medo, logo o
medo, pudesse ter alguma influência
em nosso trabalho. Eu, pelo menos, nunca teria imaginado; e, se o medo que tive
foi pelos outros e não por mim, isso agora não faz mais a mínima diferença.
Alguns
homens, sejam os acomodados e obesos executivos de grandes multinacionais ou os
pobres coitados que não têm nem o que comer, tendem a se preocupar apenas com
aquilo que podem ver e tocar; outros, como eu e minha equipe, preferem se
dedicar ao infinito, ao infinitamente distante, aquilo que, com a mais absoluta
certeza, não poderemos nunca ver ou tocar. Esse é um assunto que sempre me
fascinou; quando criança, eu costumava imaginar um livro tão longo, mas tão
longo, que seria impossível lê-lo durante uma vida inteira... Acho que minha
pequena mente não conseguia imaginar, na época, a angústia que resultaria dessa
situação. Algo grande demais para qualquer um de nós, mesmo o mais brilhante,
assimilar; derrotados por uma questão matemática básica: lendo-se no máximo
tantas páginas por dia, vivendo-se no máximo outros tantos anos, ninguém, ninguém nunca conseguiria entender o
livro em sua totalidade. Uma coisa tão simples.
Enfim, de
qualquer forma, acredito que foi esse meu ímpeto infantil que me levou à
ciência da computação, por acreditar que a capacidade de processamento de um
computador eventualmente ultrapassaria a de um ser humano; que os cérebros
eletrônicos nos trariam possibilidades ainda impensáveis, simplesmente porque
nossos cérebros de carne não as conseguem imaginar. E o meu primeiro projeto
nesse sentido foi justamente o Macaco.
O Macaco era
um computador que nós desenvolvemos pra um único fim: escrever. Sim, outros
desse tipo já existiram e talvez ainda existam; o próprio apelido que demos a
ele advém de uma ideia antiquíssima, que alguém algum dia comentou: o fato de
que um macaco sentado à frente de uma máquina de escrever, aleatoriamente
batendo nas teclas, iria eventualmente, com tempo suficiente, escrever toda a
obra de Shakespeare. Isso sem ter ou adquirir qualquer conhecimento relativo às
questões existenciais de Hamlet ou ao amor impossível de Romeu e Julieta. Como
um copista medieval cuja fonte é o infinito, o computador-macaco simplesmente
escreveria sem parar até que, entre blocos e blocos de texto ininteligível, algo surgiria.
O que nós
fizemos de diferente pro nosso Macaco foi utilizar um recurso que ainda é
consideravelmente amplo nestes dias: a internet. Ele foi programado pra
confrontar automaticamente os seus próprios textos com aqueles que encontrasse
pela web, e assim, na base da comparação estatística pura e simples, refinar os
algoritmos e reduzir drasticamente a quantidade de nonsense.
Por algum tempo,
ficamos completamente estupefatos com o quão bem nosso projeto funcionava. A
cada dia, seus escritos ficavam mais concisos, mais interessantes. E menos de
um mês, ele já produzia textos longos e perfeitamente compreensíveis; muitos
deles, e isso já era previsto, eram cópias de obras de autores famosos ou de
bloggers anônimos, e toda vez que isso acontecia ele nos “comunicava” o
ocorrido com um e-mail. Tudo ia impecavelmente bem; até que, um dia, algo absurdamente óbvio (e ainda assim
inesperado) aconteceu.
Havíamos
recebido, como muitas outras vezes nos últimos meses, um e-mail do Macaco nos
avisando que ele havia encontrado um texto online que batia com exatidão com
algo que ele escrevera: uma coisa banal, algo sobre criar galinhas ou coisa
assim. Tudo normal, a mesma singela comemoração de sempre (já nos estávamos
acostumando ao fato), quando um de nós percebeu um detalhe: a postagem fora
feita cinco dias depois de o Macaco
tê-la, por conta própria, escrito. E aí que revelação súbita nos ocorreu: dentre
tudo que o Macaco escreveria, aleatoriamente agrupando palavras com um senso
básico de gramática, estariam, sem dúvida, textos ainda não escritos.
Ainda que
alguns entre nós tenham, naquele momento, demonstrado uma reação inicial de
euforia, o sentimento geral naquela sala era de apreensão, senão de desespero.
O que mais aquela máquina cega poderia descobrir? Um futuro best-seller, antes
que o seu autor sequer nascesse? Notícias de todo o mundo, eleições,
revoluções, guerras, anos antes dos próprios fatos acontecerem? Ou, quem sabe,
as certidões de óbito de cada um de nós que trabalhamos pra criá-la, com nossos
nomes, datas de nascimento, tudo numa perfeição robótica? Tudo isso era
possível, posso dizer até que provável;
e o pior é que nunca saberíamos com certeza o que seria real e o que seria
simplesmente uma ficção incrivelmente precisa. E se um marido desconfiado lesse
sobre a traição da esposa? E se um suicida visse sua própria carta de
despedida? Hesitaríamos? Duvidaríamos? Juro que, do alto de todo o meu
ceticismo, eu quase imaginei um macaco supremo, batendo infinitamente na
máquina do destino, rindo histericamente de nossa ignorância.
Mas ficou
claro pra nós, depois de um instante de reflexão, que estávamos diante de uma
bifurcação importantíssima no curso de nossas carreiras e nossas vidas; uma
ocasião quase religiosa. Ali, à nossa frente, manifestava-se em forma física o
maior (e talvez único) mistério do universo, de onde muitos fizeram deuses e
forças cósmicas: a aleatoriedade em si. O total das possibilidades deste mundo
e de todos os outros. Algo profundo demais, perigoso demais, grande demais pra que nós ousássemos
manusear. Por fim, nenhum de nós vacilou em considerar que o projeto deveria
ser cancelado.
Forço-me,
entretanto, a comentar um pormenor que é do conhecimento de poucos: os frutos
desse trabalho, a grande obra do Macaco, não foram eliminados, pois isso iria
contra nossos princípios e a política de nossos patrocinadores. As milhares
(talvez milhões) de páginas estão todas arquivadas, em algum lugar, esperando
pra serem lidas. Talvez enquanto durar o universo nenhuma delas tenha alguma
utilidade; talvez só sirvam pra que um dia, quando o que restou de nosso mundo
seja finalmente reduzido a cinzas, algum cientista ensandecido (e quem dirá que
não serei eu mesmo?) sair gritando pelas ruas “eu sabia!”, “eu já sabia!”.
Uma coisa tão
simples...
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