Caso Oblíquo

Talush acordou de sonhos irrequietos, e permaneceu sentado em sua rede por alguns instantes. Sentiu uma raiva familiar crescer lentamente em seu íntimo. Pôs-se de pé de um salto; cruzando o véu que delimitava seus aposentos, foi ter com sua mãe. A velha Kumar o saudou de forma carinhosa, mas ele constatou de pronto que ela havia estado chorando. Seu pai não estava ali; a raiva se expandiu como a dor de uma estocada, em espasmos quentes e regulares.
Deixando a tenda, o rapaz se dirigiu ao centro da aldeia com um objetivo claro em mente. Fazendo questão de se desviar dos olhares funestos das entidades que vigiavam a entrada do Templo, tomou o caminho lateral, enfrentando alguns metros de mata fechada, até dar na clareira exatamente atrás do grande edifício. Ali, alguns companheiros estavam reunidos em torno de um trono baixo e tosco; uma mulher o ocupava, e aninhava no colo um ídolo de madeira.
- Kundik e Amuab, que filhos desnaturados! - exclamava Niazat, o fantoche, na voz da mulher. - Os deuses só podem ser montes de esterco se não podem dar à pobre Banir uma família decente! Ela que sempre foi uma filha respeitosa, uma esposa fiel e mãe dedicada…
Os espectadores se divertiam com a cena. Aquelas palavras, saídas da garganta de qualquer um, seriam blasfemas o suficiente para render uma sentença de morte; todavia, o pequeno boneco que habitava atrás do Templo era livre para falar sempre o que quisesse, sobre tudo e todos.
Paciente, Talush aguardou de pé por uma oportunidade de se sentar no trono. Quando sua vez chegou e um companheiro lhe alcançou a figura, tomou-a nos braços com cuidado e reverência, e pigarreou um instante antes de lhe dar voz: ao abrir os lábios de palha, Niazat subitamente explodiu em fúria contra Talik, pai de Talush. Afirmou que o homem, caçador renomado na aldeia, era um bêbado e um covarde; que sua bravura só durava enquanto estivesse acompanhado de outros homens, e que se batia apenas com mulheres e crianças quando a sós. Disse muito mais coisas, ridículas e terríveis, maldições que soavam como berros animalescos, para deleite de sua plateia.
O jovem respirou fundo quando enfim o fantoche terminou de falar. Percebera que Talik havia estado ali fazia algum tempo, rindo junto aos outros; entregou então o ídolo ao companheiro seguinte, e foi prestar seus cumprimentos ao pai. Os dois se abraçaram de forma cordial.
Talush sentia agora o corpo pesado como se houvesse caminhado por horas; mas havia ainda uma tarefa a cumprir. Refazendo a rude trilha que ladeava o Templo, ele evitou mais uma vez os guardiões e se desviou para o rio. Mergulhou até que as águas o cobrissem completamente, e permaneceu assim enquanto seus pulmões permitiram; então emergiu, e se deixou ficar flutuando, imerso em pensamentos, por longos e preguiçosos minutos.
Quando entendeu que já havia gasto todo o tempo de que dispunha, o rapaz mergulhou novamente, agora concentrado e deixando transparecer apenas o mais ligeiro indício de impaciência; com um movimento rápido e preciso, apanhou o primeiro peixe que enxergou: um grande e gordo bagre. Com o sacrifício em mãos, Talush retornou ao centro da aldeia pela última vez naquele dia.
Enfim se atreveu a desafiar os olhares das entidades, e atravessou o majestoso pórtico do Templo. Seguindo o longo corredor de imagens sagradas, marchou de forma serena e digna até a última edícula: aquela sem adereços, sem estatuetas, sem ícones e sem divindade; aquela cujo altar, dentre os numerosos que ali havia, era o mais frequentemente honrado. O jovem se ajoelhou perante o espaço vazio e depositou sua própria pequena oferenda; tomando em mãos um pedaço de carvão de uma fogueira havia muito apagada, rabiscou um lacônico “perdão” no chão de pedra; então se ergueu novamente e retornou a sua tenda, e dormiu.

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