Algumas
pessoas temem que a existência de um Deus, ser onisciente, implicaria
necessariamente na inexistência do livre-arbítrio: ora, se o futuro é de alguma
forma cognoscível, então é impossível alterá-lo; nossas vidas já estão
definidas antes que as vivamos. Contudo, um pensamento ainda mais inquietante é
que esse raciocínio pode se manter mesmo sem a interferência de uma
entidade suprema.
Viver é o ato
de fazer escolhas: antes de nascermos, já muitas delas foram feitas sem nosso
consentimento; as condições sob as quais viemos ao mundo delimitam
consideravelmente os caminhos que podemos tomar. Cada escolha nossa afunila
ainda mais o leque de opções. É como descer um rio que se desdobra em um largo
delta: a princípio, existe uma miríade de fozes pelas quais se pode chegar ao
mar; entretanto, quanto mais se navega, menos e menos saídas restam. E não há
como se remar de volta contra a corrente.
Em algum
ponto ao longo do caminho, o caminho deve-se tornar previsível (mesmo que
nós não o prevejamos); em algum momento, o viver se torna um não-viver, mas
apenas um deslizar vida abaixo: apenas as consequências de escolhas pretéritas,
amontoando-se umas sobre as outras em um ritmo exponencial. Paradoxalmente, quanto
mais se vive, menos se vive.
E aí se
encaixam todos os instantes de dúvida, todas as tentativas de se mudar de rumo
ou se portar de forma inesperada: o desconsolo surge simplesmente em função
de alguma decisão que foi ou não tomada no passado, e
a “mudança” já estava então determinada. A ação mais ilógica e desesperada
tem sempre uma motivação, mesmo que essa seja a de se agir desesperada
e ilogicamente.
Isso talvez
explique por que algumas pessoas dizem que a vida é feita de “ciclos”:
vicia-se, arrepende-se, torna-se a recair; a necessidade de se obter mais
dinheiro, a qualquer custo, vem da obtenção de muito dinheiro em primeiro
lugar, e a eventual caridade é só um desencargo de consciência; o álcool pune o
sexo que aquieta os traumas que se embalam em medos mais velhos que nós.
Talvez,
também, isso explique por que alguns se encarregam de registrar o óbvio, como
se isso de alguma forma os pudesse remover do ciclo; o que, é claro, é
ridículo, mas inevitável.
Nenhum comentário:
Postar um comentário