Breve Compêndio de Pseudeisegeses II - Cataratas da Alma

Algumas pessoas temem que a existência de um Deus, ser onisciente, implicaria necessariamente na inexistência do livre-arbítrio: ora, se o futuro é de alguma forma cognoscível, então é impossível alterá-lo; nossas vidas já estão definidas antes que as vivamos. Contudo, um pensamento ainda mais inquietante é que esse raciocínio pode se manter mesmo sem a interferência de uma entidade suprema.
Viver é o ato de fazer escolhas: antes de nascermos, já muitas delas foram feitas sem nosso consentimento; as condições sob as quais viemos ao mundo delimitam consideravelmente os caminhos que podemos tomar. Cada escolha nossa afunila ainda mais o leque de opções. É como descer um rio que se desdobra em um largo delta: a princípio, existe uma miríade de fozes pelas quais se pode chegar ao mar; entretanto, quanto mais se navega, menos e menos saídas restam. E não há como se remar de volta contra a corrente.
Em algum ponto ao longo do caminho, o caminho deve-se tornar previsível (mesmo que nós não o prevejamos); em algum momento, o viver se torna um não-viver, mas apenas um deslizar vida abaixo: apenas as consequências de escolhas pretéritas, amontoando-se umas sobre as outras em um ritmo exponencial. Paradoxalmente, quanto mais se vive, menos se vive. ​
E aí se encaixam todos os instantes de dúvida, todas as tentativas de se mudar de rumo ou se portar de forma inesperada: o desconsolo surge simplesmente em função de alguma decisão que foi ou não tomada no passado, e a “mudança” já estava então determinada. A ação mais ilógica e desesperada tem sempre uma motivação, mesmo que essa seja a de se agir desesperada e ilogicamente.
Isso talvez explique por que algumas pessoas dizem que a vida é feita de “ciclos”: vicia-se, arrepende-se, torna-se a recair; a necessidade de se obter mais dinheiro, a qualquer custo, vem da obtenção de muito dinheiro em primeiro lugar, e a eventual caridade é só um desencargo de consciência; o álcool pune o sexo que aquieta os traumas que se embalam em medos mais velhos que nós.
Talvez, também, isso explique por que alguns se encarregam de registrar o óbvio, como se isso de alguma forma os pudesse remover do ciclo; o que, é claro, é ridículo, mas inevitável.
        

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