Todos os
dias, jornais do mundo todo servem de veículo para um tipo de comunicação que
passa despercebida aos olhos da imensa maioria dos leitores; alguns dos
anúncios apresentados nas páginas dos classificados não se referem a uma
propriedade real, e aqueles que (desconfiadamente ou não) ligarem para o
número fornecido serão informados de que “a casa já foi vendida” ou
desculpa equivalente. Apenas os poucos que possuem conhecimento da palavra-chave
a ser dita durante o telefonema, ou o segredo da interpretação do sucinto texto
da nota, compreendem o significado dessas mensagens.
Não há
nenhuma evidência que suporte a veracidade das afirmações expostas no parágrafo
acima; todavia, a tática não apenas é plausível, como também bastante prática.
O uso de objetos ou eventos cotidianos para a transmissão de nuances mais
profundas ou específicas não é uma invenção recente: durante a Era Vitoriana,
por exemplo, havia uma “linguagem das flores” que permitia a expressão de
sentimentos e desejos (os quais, pela moral da época, não poderiam ser
revelados em voz alta) mediante a troca de pequenos buquês chamados tussie-mussie;
fenômenos similares são encontrados em outras culturas ao redor do mundo, como
a hanakotoba (花言葉) japonesa, e em diversos trabalhos da literatura mundial, da Bíblia a Shakespeare.
A diferença
entre esses códigos e o proposto no início deste texto é que, no primeiro caso,
a decodificação do simbolismo é sempre simples e acessível (na
supramencionada Inglaterra Vitoriana, “dicionários florais” continham todo o
conhecimento necessário a respeito); isso porque, enquanto que podiam ser
utilizados para o envio de mensagens secretas, a existência em si
desses sistemas não é nem nunca foi secreta.
Imaginemos,
então, uma sociedade de pessoas que, desde sabe-se lá quando, têm se comunicado
por intermédio de um arranjo semelhante; concedamos, contudo, que nenhum
detalhe acerca deste seja publicamente conhecido. Apenas os membros o dominam,
e portanto apenas os membros o reconhecem; seus motivos, seus interesses, sua
dimensão ou sua influência: nada disso é ao menos verificável para os
“de fora”. Como um mastodôntico easter egg universal, sua mensagem só
é visível àqueles que já sabem que ela está lá.
A hipótese do
uso de jornais, aliás, é puramente especulativa; a tal comunicação, se existir,
pode ser feita por uma variedade de outros meios: comerciais de TV ou rádio,
cartazes colados em muros, textos em blogs da internet etc. As possibilidades
são virtualmente infinitas.
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