Áno ppuset fóla djor/O vóla kháno tor pjuset, escreveu Emýra, maior poeta do temól clássico. “O vento leva as folhas de outono/E o vento leva as folhas de outono”, é a tradução literal; as sutis e melancólicas conotações de cada arranjo sintático, entretanto, passam despercebidas a quaisquer ouvidos leigos. O que, hoje, equivale a dizer qualquer ouvido que não seja o meu.
As conotações passam despercebidas; despercebidas as conotações passam; passam as conotações despercebidas: o português é uma linguagem insípida, enfadonha. Cada unidade semântica é fechada em si própria; os joguinhos inócuos dos nossos escritores, buscando abrir novos caminhos de significância, redundam contudo em ampla saturação. Tal limitação é inerente à organização (essencialmente linguística) de nossos pensamentos.
É por isso que eu dediquei meus melhores anos (meus únicos anos, diria) à pesquisa do temól. Um idioma que não possui nenhuma unidade básica fixa; os signos, fluidos, se distribuem em um equilíbrio tanto livre quanto rítmico, como os átomos de um cristal. Um idioma extinto, cujas características eu precisei mendigar em diversos e esquecidos livros escritos em outros diversos e esquecidos idiomas; o conteúdo acessível online a respeito não passava de um punhado de comentários superficiais e notas de rodapé. Todo o corpo ainda existente da língua eu passei compilando, por quinze longos anos; mesmo que algumas lacunas eu tenha que ter preenchido por conta própria, tudo se encaixava cabalisticamente e sem qualquer contrariedade.
E então veio a Guerra. Veio e passou. Eu me havia trancado em um escritório da universidade; dali fugi às pressas para o bunker subterrâneo quando os clarões começaram, e dali de volta para o escritório quando eles cessaram novamente. O esforço foi só o de carregar os velhos papéis de um lugar para o outro; em momento algum meu trabalho foi interrompido. A Guerra, então, veio.
Eu deveria ter previsto que isso aconteceria, por conta da dificuldade que tive em encontrar cada gota de informação; meu empenho não me permitiria jamais parar, mas acho que eu sempre soube. Os escassos especialistas que eu consegui contatar, mesmo antes das bombas começarem a cair, estavam todos muito concentrados em projetos “mais importantes”; logo estavam todos muito mortos para qualquer projeto. Não havia ninguém; ninguém mais no planeta possuía um nível de conhecimento suficientemente avançado para ler sequer uma frase em temól.
E o que é um livro, por mais denso e minucioso que seja, se ninguém pode lê-lo? O que são os símbolos de nosso alfabeto latino, tão adoravelmente organizados e práticos, sem uma mente humana para lhes atribuir significado? E eu, isolado em pensamentos quase extintos, o que sou? Isolado em quase extintos pensamentos, o que sou eu? O que sou, em pensamentos quase extintos isolado, eu?
Eco.
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