Lentilhas Ardentes

Título horroroso. Eu ia pôr On Burning Mirrors, mas não achei o nome original em grego nos longos trinta segundos de pesquisa (não que fosse ficar um microjoule melhor). Porque por algum motivo eu tava lendo sobre o uso de lentes convexas pra convergir os raios do sol e queimar coisas; mas quem resiste a lentilhas ardentes? (lentilles, lógico; eu sou uma pessoa engraçadíssima).
Então. Eu pensava em escrever um meio-que-ensaio sobre como a vida é feita de efemeridades e acabei me perdendo nas meta-referências. Não, sério, é difícil estabelecer alguma significância se antes mesmo de digitar uma idéia, antes de terminar de pensar uma frase, já vem a necessidade de desconstruí-la. AVANT-GARDE. Deixa eu passar pro próximo parágrafo.
Porque essa temática não comporta mesmo muita suspensão de descrença, correto? Ou eu me permito uma hipocrisia desgraçada ou limito o texto a uma sucessão de “cenas” meio-formadas de mérito artístico duvidoso. Uma colagem de haikus paraguaios e sei lá que caralho de metáfora engraçadinha eu poderia usar. Tipo a versão escrita de um clipe dessas bandas hipsters de hoje em dia? Super vanguardista mesmo, pros padrões de 1920. #buñuelchatiado 
Mas afinal, o que é rock n’ roll? 
Falando sério agora. O plural de “haiku” é “haiku”, mesmo. Acabei de olhar no dicionário. E, olha!, descobri que “haiku” significa “sopro de fumaça” em finlandês; além de, claro, haiku. Os poetas fino-nipônicos devem se rasgar diuturnamente pra descobrir formas originais de explorar essa feliz coincidência. Considerando que eles existam, né. 
De qualquer forma, isso me faz pensar se ler a descrição de uma palavra te permite realmente compreender o que ela significa. Filosofia de boteco, ok, mas porra. Daí a pessoa lê “ciclos de rápidas contrações musculares nos músculos pélvicos” (fonte: Wikipédia; “musculares nos músculos”, gente) e goza? Então eu traduzo Sehnsucht como “vício em ansiar” e todas as circunstâncias psico-sócio-histórico-sexuais que levaram o povo alemão a até conceber uma palavra pra isso que se fodam? E, por conseqüência, eu devo assumir que um dia os computadores vão entender piadas de papagaio? 
Não que isso importe muito. O leitor vai se lembrar deste texto amanhã? Olha só. Monges medievais. Os caras tinham só meia dúzia de manuscritos pra ler a vida toda, então claro que eles ficavam presos a cada vírgula simplesmente porque cada vírgula era uma relíquia (e existiam os copistas, que nem ler sabiam). Hoje nós temos a internet. Reverência cega contra pragmatismo indolente? A liberdade de interpretação e adaptação (a desterritorialização, diria Deleuze) é a guilhotina zen da era wiki, a revolução tá engatilhada, mas e aí? Este texto faz algum sentido? Não é uma pergunta retórica. Ou então eu posso escrever qualquer merda, erar a otrogafia a potauçã eu poss at´ nem. 
Pois é. Mas assim é a vida, certo? A guerra, as eleições, tudo é um grande painel de clipes desconexos se contraponteando; os teus amigos são um número no canto da tela. Não adianta eu querer seguir escrevendo ad infinitum, a responsabilidade não é minha, eu não posso catalogar o mundo em um ensaio; e mesmo que eu pudesse (e quisesse), não seria ético. A responsabilidade não é minha.
Eu já usei esse recurso de terminar o texto abruptamente em outra ocasião, mas nesse caso a escolha se justificava pelo tópico em questão; desta vez eu simplesmente não tenho como referenciar essa bagaça toda de forma nem pseudo-inteligente.

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