A noite seguia graciosamente perfeita, como se houvesse sido
minuciosamente ensaiada. Ele fazia piadas, ouvia com paciência as longas
histórias da futura sogra, parecia totalmente confortável. Também havia amado a
sua comida, o que poderia ter sido um ponto importante. A certo ponto do
jantar, ela teve a certeza de que mesmo seu falecido pai o teria adorado.
- Mas me conta, Owen... - sua mãe então se dirigiu ao
rapaz, após o esvaecer de mais uma sessão de risadas, com tanta naturalidade
quanto já o fazia desde a segunda taça de vinho; não tinha nenhuma questão
específica em mente, pretendia apenas trazer um novo assunto qualquer à
conversa. - Como que você virou astronauta?
- É uma longa história. - sua voz era como o mar
batendo contra a praia... Profunda, constante, quase hipnótica, mas ao mesmo
tempo suave e agradável. - O meu pai era pescador em Dublin. Um dia, vocês vão
até achar graça, ele saiu pra comprar cigarro e voltou trazendo
uma daquelas TVs antigas à válvula; vocês conhecem?
Naturalmente, ele já estava preparado para seguir seu
pequeno conto, e a pausa não deveria ter durado mais que alguns segundos;
quando, contudo, o silêncio se tornou incômodo, ele percebeu que algo estava
errado. Ela sentiu o coração subir imediatamente à garganta, e tornou o olhar
bruscamente para a mãe; esta mirava o chão, paralisada. Assim ficaram os três,
congelados em uma cena de tensão quase palpável, por vários instantes.
- O que houve? - ele perguntou, sussurrando, para
ninguém em particular; sua confusão era sincera e evidente.
- Eu acho - respondeu, não sem um tanto de hesitação,
sua ex-futura sogra. - que é melhor você ir, Owen.
Somente uma vez ele tentou entender, tentou
procurá-la; foi necessário apenas mais um momento de amargo e frustrante
silêncio para ele partir sem olhar para trás. Ela não procurou se
explicar; não havia explicação. Foi melhor assim. Com certeza ele não
demorou a encontrar um novo amor, menos complicada e possivelmente mais bonita
e interessante.
Já ela não teve escolha senão se acostumar à solidão.
Aquela havia sido sua primeira e última tentativa de compartilhar sua
intimidade com outra pessoa. Sua mãe a confortava sem palavras; e ela precisava
se refugiar em desabafos desconexos e anônimos em um blog. Nem mesmo aos
estranhos da internet, entretanto, se atrevia a se abrir totalmente.
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