Linha do tempo #1
A tensão cresce na praça de alimentação do shopping popular.
Alguns ainda permanecem por trás do cordão de isolamento, corajosa e
estupidamente empunhando seus celulares contra aquela cena insólita, na
esperança de captar em vídeo algo de interessante para postar na internet: a
maleta, solitária em meio à floresta de mesas vazias, impetuosamente paciente
como uma Esfinge, espera por seus desafiantes.
O esquadrão antibombas chega abrindo caminho entre a
multidão de curiosos e, com a pressa e cautela típica daqueles de cujo trabalho
dependem muitas vidas, avança em direção ao seu alvo.
- É, com certeza é uma bomba. - atesta Jack, o
veterano amargo e irônico, após uma cuidadosa (ainda que um tanto rápida)
inspeção do artefato. Não admite, mas aquele modelo, com seus três fios
vermelhos e diferenciados apenas por etiquetas (numeradas com 0,
1 e 2), lhe é totalmente estranho.
- Tem um papel aqui. - comenta Rachel, a novata, ansiando
dar alguma contribuição e provar aos colegas que é mais do que apenas uma
bonequinha perdida num mundo de perigo, decepções e grandes símbolos
fálicos.
Ajoelhando-se, Jack detecta, colado com fita adesiva sob
a mesa, um bilhete escrito em caligrafia descuidada; e, tomando-o nas mãos,
o lê sem esboçar qualquer sentimento:
Um
mestre zen e seu discípulo um dia andavam por uma estrada. Em certo ponto,
chegaram a uma bifurcação. E agora, mestre?, questionou o jovem, Que
caminho tomaremos? Sem dizer qualquer palavra, o sábio virou-se e lhe
desferiu um tapa no rosto. Naquele momento, o discípulo atingiu a iluminação.
- Que merda é essa? - pergunta Gus, o piadista despreocupado
e ligeiramente psicótico. Sorri; mas então percebe que os outros
dois estão completamente sérios.
Por alguns minutos, então, os três se põem a pensar
sobre o sentido daquele enigma. Tendo consciência de sua responsabilidade (caso
não o tivessem, o timer cada vez mais próximo do zero faria questão de
lhes recordar), cada um, à sua própria maneira, tenta relacionar o conteúdo do
texto com as possibilidades de ação.
- Só existe um caminho. - diz Rachel, finalmente;
gagueja um pouco, demora para conseguir organizar sua ideia, mas tem
total certeza de estar correta. Seus colegas interrompem seus fluxos de
pensamento para ouvi-la. - O mestre repreendeu o aluno porque,
independentemente da escolha que ele fizer, esse vai ser o caminho que
eles vão percorrer. Só existe um caminho. A resposta é 1.
Seus colegas a observam por um instante; são os
últimos segundos, e o suor em seus rostos revela o silencioso desespero que os
invade. Uma rápida troca de olhares confirma que não há absolutamente solução
melhor, ou tempo para que se tente encontrar uma. Jack respira fundo;
então, em um único movimento, fecha os olhos e corta o fio com a etiqueta
1.
A bomba explode.
Linha do tempo #2
A tensão cresce na praça de alimentação do shopping popular.
Alguns ainda permanecem por trás do cordão de isolamento, corajosa e
estupidamente empunhando seus celulares contra aquela cena insólita, na
esperança de captar em vídeo algo de interessante para postar na internet: a
maleta, solitária em meio à floresta de mesas vazias, impetuosamente paciente
como uma Esfinge, espera por seus desafiantes.
O esquadrão antibombas chega abrindo caminho entre a
multidão de curiosos e, com a pressa e cautela típica daqueles de cujo trabalho
dependem muitas vidas, avança em direção ao seu alvo.
- É, com certeza é uma bomba. - atesta Jack, o
veterano amargo e irônico, após uma cuidadosa (ainda que um tanto rápida)
inspeção do artefato. Não admite, mas aquele modelo, com seus três fios
vermelhos e diferenciados apenas por etiquetas (numeradas com 0,
1 e 2), lhe é totalmente estranho.
- Tem um papel aqui. - comenta Rachel, a novata, ansiando
dar alguma contribuição e provar aos colegas que é mais do que apenas uma
bonequinha perdida num mundo de perigo, decepções e grandes símbolos
fálicos.
Ajoelhando-se, Jack detecta, colado com fita adesiva sob a
mesa, um bilhete escrito em caligrafia descuidada; e, tomando-o nas mãos, o lê
sem esboçar qualquer sentimento:
Um
mestre zen e seu discípulo um dia andavam por uma estrada. Em certo ponto,
chegaram a uma bifurcação. E agora, mestre?, questionou o jovem, Que
caminho tomaremos? Sem dizer qualquer palavra, o sábio virou-se e lhe
desferiu um tapa no rosto. Naquele momento, o discípulo atingiu a iluminação.
- Que merda é essa? - pergunta Gus, o piadista despreocupado
e ligeiramente psicótico. Sorri; mas então percebe que os outros
dois estão completamente sérios.
Por alguns minutos, então, os três se põem a pensar sobre o
sentido daquele enigma. Tendo consciência de sua responsabilidade (caso não o
tivessem, o timer cada vez mais próximo do zero faria questão de lhes
recordar), cada um, à sua própria maneira, tenta relacionar o conteúdo do texto
com as possibilidades de ação.
- É inútil. - murmura Jack, finalmente; sua voz soa
mais fraca que o tique-taque da bomba, mas sua experiência lhe traz a resposta
de forma quase instintiva. Seus colegas interrompem seus fluxos de pensamento
para ouvi-lo. - O mundo é cheio de bifurcações, cada uma leva a outra... O erro
está em procurar um caminho. Não existe caminho, só existe o caminhar. O
fio certo é o 0.
Seus colegas o observam por um instante; são os
últimos segundos, e o suor em seus rostos revela o silencioso desespero que os
invade. Uma rápida troca de olhares confirma que não há absolutamente solução
melhor, ou tempo para que se tente encontrar uma. Jack respira fundo;
então, em um único movimento, fecha os olhos e corta o fio com a etiqueta
0.
A bomba explode.
Linha do tempo #3
A tensão cresce na praça de alimentação do shopping popular.
Alguns ainda permanecem por trás do cordão de isolamento, corajosa e
estupidamente empunhando seus celulares contra aquela cena insólita, na
esperança de captar em vídeo algo de interessante para postar na internet: a
maleta, solitária em meio à floresta de mesas vazias, impetuosamente paciente
como uma Esfinge, espera por seus desafiantes.
O esquadrão antibombas chega abrindo caminho entre a
multidão de curiosos e, com a pressa e cautela típica daqueles de cujo trabalho
dependem muitas vidas, avança em direção ao seu alvo.
- É, com certeza é uma bomba. - atesta Jack, o veterano
amargo e irônico, após uma cuidadosa (ainda que um tanto rápida) inspeção do
artefato. Não admite, mas aquele modelo, com seus três fios vermelhos
e diferenciados apenas por etiquetas (numeradas com 0, 1 e
2), lhe é totalmente estranho.
- Tem um papel aqui. - comenta Rachel, a novata, ansiando
dar alguma contribuição e provar aos colegas que é mais do que apenas uma
bonequinha perdida num mundo de perigo, decepções e grandes símbolos
fálicos.
Ajoelhando-se, Jack detecta, colado com fita adesiva sob
a mesa, um bilhete escrito em caligrafia descuidada; e, tomando-o nas mãos,
o lê sem esboçar qualquer sentimento:
Um
mestre zen e seu discípulo um dia andavam por uma estrada. Em certo ponto,
chegaram a uma bifurcação. E agora, mestre?, questionou o jovem, Que
caminho tomaremos? Sem dizer qualquer palavra, o sábio virou-se e lhe
desferiu um tapa no rosto. Naquele momento, o discípulo atingiu a iluminação.
- Que merda é essa? - pergunta Gus, o piadista despreocupado
e ligeiramente psicótico. Sorri; mas então percebe que os outros
dois estão completamente sérios.
Por alguns minutos, então, os três se põem a pensar
sobre o sentido daquele enigma. Tendo consciência de sua responsabilidade (caso
não o tivessem, o timer cada vez mais próximo do zero faria questão de
lhes recordar), cada um, à sua própria maneira, tenta relacionar o conteúdo do
texto com as possibilidades de ação.
- Vocês tão de brincadeira? - debocha
Gus, finalmente; os semblantes concentrados de Jack e Rachel lhe são
desconcertantes: ele tem a conclusão como óbvia. Seus colegas interrompem seus
fluxos de pensamento para ouvi-lo. - O menino tinha a oportunidade de fazer uma
escolha, mas preferiu perguntar pro mestre o que fazer. A “iluminação”
significa tomar decisões, ser dono da própria vida; não procurar por um caminho
certo. É isso que a bifurcação representa. Bifurcação. Dois. A resposta
é 2.
Seus colegas o observam por um instante; são os últimos
segundos, e o suor em seus rostos revela o silencioso desespero que os invade.
Uma rápida troca de olhares confirma que não há absolutamente solução melhor,
ou tempo para que se tente encontrar uma. Jack respira fundo; então, em um
único movimento, fecha os olhos e corta o fio com a etiqueta 2.
A bomba explode.
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