De todos os
infindáveis caminhos que uma obra pode tomar, um dos que mais me impressiona é
a capacidade de levar um leitor (ou espectador; mas acredito que esse seja um
fenômeno mais particular da literatura) a aceitar simultaneamente duas
proposições inteiramente incompatíveis: um personagem pensa uma coisa, outro
afirma outra exatamente oposta, e quem lê não tem como decidir entre os dois.
Infelizmente, esse parece ser um efeito temporário: ao se chegar ao fim do
texto, a palavra final é dada, e a “verdadeira verdade” é estabelecida. Mesmo
quando o escritor tenta manter a ambiguidade, escreve de forma não linear, dá
todo o espaço necessário pra que cada um desvende a narrativa conforme seu próprio
entendimento, ainda assim as diferentes
possibilidades não são consideradas de forma paralela: são sempre
“ramificações”; é se tal coisa, se tal outra coisa.
Isso me
parece um desperdício de imaginação, uma forma de censura indireta à liberdade
de pensamento. Só porque algo é completamente ilógico, não significa que não
possa ser imaginado; e que melhor campo pra esse exercício do que a literatura?
Vamos fazer
um experimento. Digamos que nós estejamos escrevendo um livro, e a nossa
personagem principal, uma garotinha de dez anos, tenha um dragão; o que nem é
tão improvável, existem milhões de romances de fantasia por aí que mantêm a
existência de dragões como coisa cotidiana e inequívoca. O que eu quero dizer
é: graças a toda essa carga cultural, um mix de lendas vagamente similares de
todos os continentes e a “magia” hollywoodiana, hoje a imagem da criatura já
está inserida no nosso inconsciente coletivo, mesmo que nenhum de nós tenha
jamais visto um na vida; e, em favor de alguns momentos de entretenimento
inócuo, certamente que todo leitor vai se permitir crer que o amiguinho da
menina é real.
Agora, o
irmão mais velho da nossa protagonista, um sujeito bastante racional, sabe que
isso é impossível; porque dragões, é claro, só existem em lendas e romances de
fantasia. Ele vai sempre insistir que o monstro existe apenas na cabeça da
criança, e que todas as situações em que parece ter havido interação entre os
dois possuem explicações lógicas e mundanas. O leitor se vê obrigado a
concordar com ele; é a chamada “navalha de Occam”: a hipótese mais simples é
frequentemente a correta.
Neste ponto, ambas
as proposições são igualmente válidas: que o dragão exista, de fato, no
contexto do livro, ou que seja simplesmente uma invenção da mente criativa da personagem.
O desafio está em manter esse estado de dúvida, ou de aceitação simultânea, até
o fim da leitura, e além. Isso não se resume a escrever, no último parágrafo,
que o dragão “existia e não existia”, porque esse tipo de colocação meramente
evoca uma questão filosófica que se resolve num detalhe semântico: o “existir”,
pra menina, opera num grau subjetivo, de forma que, se ela enxerga o dragão, não
interessa que os outros não o vejam, ele existe; enquanto que, pro rapaz, empirista
inveterado, o dragão não existe exatamente porque não é detectável por seus
sentidos. A ideia aqui é o narrador, em terceira pessoa, consiga declarar que a
criatura ao mesmo tempo existe e não
existe, no mesmo grau ontológico, da forma mais objetiva e clara possível.
É preciso que
lancemos mão de um recurso linguístico, portanto; uma construção cujo uso,
evidentemente, se limite à arte e (quem sabe) à filosofia. A princípio, a
solução parece fácil: inventamos um meio-termo entre a afirmação e a negação,
digamos, um “nim” (fusão dos advérbios “sim” e “não”, caso isso já não seja
óbvio o suficiente); e nos convencionamos a entender que, pondo-o antes de cada
verbo, a ação por este definida passe a ser concomitantemente afirmada e
negada. Então o dragão nim existe.
Já é um
começo. Mas não seria bastante dizer que ele nim fez tal ação, pois, dependendo
do contexto, surgiria uma conotação indesejada: que ele não a tenha feito por
um motivo outro que sua não existência, possibilitando a interpretação de que
ele simplesmente exista. Por isso, acredito ser imperativa a criação de um modo
verbal original, como que uma síntese do indicativo com o subjuntivo: algo que
defina uma ação realizada por um sujeito existente, mas que talvez o fosse caso tal sujeito
existisse. Um modo prático de fazer isso seria utilizar a conjugação do
subjetivo, mantendo o fraseado e o tempo correspondente, no indicativo: “a
menina se aproximou devagar, e a fera a abraçasse
com ternura”...
... Entretanto,
ela não o abraçasse de volta: isso indicaria que é a menina que nim existe; precisamos desenvolver opções diferentes pra
nos referir ao dragão quando este for o objeto da frase. O emprego do
condicional (futuro do pretérito) nessas situações parece ideal, mas seria
necessário transformar seu sufixo característico “-ia” de acordo com cada
tempo, pessoa e número individualmente. Poderíamos optar por alternativas
aglutinantes (“abraçouia”, “abraçaía”, “abraçaraía”) ou fusionais (“abraçoía”,
“abracia” e o típico “abraçaria”).
Enfim, muitas
mais adaptações seriam ainda necessárias (em especial, o caso do pretérito-mais-que-perfeito,
que teria sempre que ser expresso por meio de locução verbal); o certo é que, de
forma geral, esses recursos nim parecem servir bem ao nosso propósito inicial,
e nim podem ser facilmente apreendidos. Um sopro renovador na literatura, que trouxer
uma gama de possibilidades inéditas ao pensamento humano, esteja em nossas
mãos; só precisíamos compreendê-lo.
Nim é?
Nenhum comentário:
Postar um comentário